madrugada entre mãe e cria

São 6h30 e até agora você só conseguiu dormir duas horas, parceladas em dois cochilos de uma hora cada. A cria termina de mamar e dorme esparramada sobre você, que, apesar de ansiosa por mais um momento de sono, não consegue dormir, pois precisa ir ao banheito, mas não consegue se decidir, pois não tem coragem de tirá-la do colo, que está tão gostoso aquele pacotinho em cima de você… Continuar lendo

cidade partida

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Passei o dia todo remoendo essa tristeza aguda de sentir tão pouca esperança no estado de coisas que parece ter se instalado no país (no estado, na cidade, nas relações humanas em geral). Essa divisão entre mundos, essa dicotomia. Chegamos a uma encruzilhada, e por qual caminho seguir não está claro. Mas o que parece claro é que quem escolhe ir por um lado deve necessariamente odiar quem escolhe ir pelo outro e vice-versa. Não existe coexistência possível, não existe tolerância ou diálogo. Vá pelo seu lado, eu sigo pelo meu. E cada um grita para o outro, em seu caminho: “ignorante”, “burguês”, “burro”, “elitista” e assim em diante. Continuar lendo

esperando Cecilia

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Você se agita e pula e mexe e cutuca o dia todo, dentro da minha barriga. É engraçado conviver com a sua presença dentro de mim, o dia todo, se mexendo, mostrando que está aqui, se fazendo presente. É engraçado não poder compartilhar com ninguém, nem mesmo seu pai, que só pode ser informado, mas não tem como saber o que é isso, como é seu movimento, sua atividade, como é ter sua presença em mim, desde agora. Continuar lendo

boa noite

Todo dia fazemos um ritual parecido. Algumas vezes com banho, outras sem, mas quase sempre com um copo de leite, um lanchinho, uma brincadeira de ver quem se veste mais rápido para dormir, uma rápida arrumação do quarto e da cama, a escovação de dentes, ver quem apaga a luz primeiro, quem deita primeiro, quem dá beijo primeiro. São brincadeiras que tornam o momento divertido e ajudam, é claro, a ver as tarefas serem cumpridas com menos enrolação.

Depois disso, é luz apagada e chamego. Cada dia um chamego e um diálogo diferente, às vezes alguma embromação (“mamãe, eu quero água”, “tira a minha meia” etc.), mas sempre um momento delícia.

Hoje foi especialmente gostoso. Continuar lendo

não vá embora

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Mãe,

Já não penso em você todos os dias.

É verdade.

Mas tem vezes em que sua falta ressoa tão profunda, tão presente, tão física, que é como se a sentisse em minhas entranhas. Como se faltasse uma parte de mim.

Às vezes me pergunto se esses cinco anos passados foram, na verdade, cinquenta. Eu jamais imaginara que você poderia não estar presente em meus pensamentos em todos e em cada um dos meus dias, assim tão cedo. É um pouco estarrecedor, na verdade.

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corpo maduro

Eu olho no espelho e vislumbro minha silhueta. Corpo de mulher distante do ideal. Seios mais fartos que o meu normal, mais inchados. Cintura fina e quadril largo. Tão largo e cheio de culote, que é praticamente só que chama meu olhar. Além da barriga. Barriga grande, flácida, caída. De um tamanho que nunca antes. Triste olhar de passeio pelo meu corpo, tão estranho que não reconheço. Tão disforme e tão meu.

A pele maleável e o fraco tônus comprovam que, ali, o tempo passou. Existem marcas, marcas de tempo e cicatrizes – nenhuma tão marcante quanto a do baixo ventre. Neste corpo cresceu uma vida. Nele, produziu-se leite, esvaziou-se, murchou, caiu. Nada ficou no lugar. Há tempo passado, há vida vivida e há certo estranhamento em meu reflexo no espelho. Continuar lendo