Dia Internacional da Mulher – e a luta continua

Encontrei-me perpassada por questões femininas e feministas, ao longo do dia.

Hoje foi proposta uma greve de mulheres que me levou a refletir bastante sobre os papéis que ocupamos na sociedade – profundamente estruturada em cima do trabalho feminino e de responsabilidades não compartilhadas de todo tipo. Pensei principalmente na educação e nos cuidados com crianças, quase exclusivamente delegados a mulheres: mães, avós, tias, babás, professoras e auxiliares de creches e escolas. O que me levou a pensar também no feminismo interseccional e em como precisamos praticar sororidade de forma não seletiva, extendida a todas: à irmã, à amiga, à colega, à funcionária, à responsável pela faxina da empresa, à babá dos filhos etc.

Peguei-me pensando nos filhos das profissionais mães que aderiram à greve e foram às ruas clamar por mais direitos e voz para nós. Com quem ficaram? Talvez na escola, com outra profissional (quase certamente) do sexo feminino e que não pôde parar para aderir e sair às ruas também. Ou talvez com outra mulher conhecida (avó, tia, amiga) ou contratada (babá). Mas será que faz sentido isso? Parar e protestar delegando funções a outra mulher impedida do mesmo direito?

Particularmente no caso das babás, me soa como um completo contrassenso: dar-se o direito de parar, mas não dar o mesmo direito à própria funcionária. Aliás, não é ela, quase certamente, a que mais precisa protestar por mais direitos e voz na nossa sociedade? Não me parece muito feminista – e, no entanto, é tão comum – do que aderir à greve e ir à manifestação lutar por mais direitos para nós, às custas do trabalho exploratório de outra mulher. Seria melhor dar o dia de folga para ela e ficar eu com o filho, ou, se encarar essa, levá-lo junto para a manifestação.

Mas será que só existem essas duas opções – ficar com filho em casa ou levá-lo para o protesto? Não está faltando alguém nessa história? Cadê aquele cara – como é mesmo o nome dele?… Pai?

Supondo então que as mães, professoras e babás aderissem à greve e fossem às ruas lutar por mais direitos e reconhecimento, logo, os homens pais também teriam necessariamente que parar ou levar as crianças para o trabalho consigo, para cuidar delas. Me pergunto: quantos teriam essa disponibilidade? Quantas famílias possuem esse esquema de revezamento nos cuidados com os filhos, mesmo quando o casal vive junto? Quantos pais saem correndo de seus trabalhos para buscarem filhos na escola, para levarem à natação ou para ficarem com eles quando estão doentes? Mais do que isso, quantos homens se solidarizariam com a causa feminista a ponto de abrirem mão de seus compromissos para fortalecerem essa luta? Isso porque não estou nem entrando no universo dos pais que sumiram, das mães solo e assim em diante.

Nesse momento eu paro e percebo o quanto ainda temos para caminhar. Quanta conquista ainda precisa ocorrer. Percebo o quanto nossa sociedade é quase inteiramente estruturada na premissa de que são as mulheres que cuidam. Somos as principais responsáveis pela casa e pelos filhos, pela própria carreira e, em muitos casos, até pela roupa e comida do marido. Trabalhamos jornadas duplas ou triplas e somos mais mal remuneradas. De nós, é esperado abrir mão de tudo para colocar os filhos em prioridade, enquanto os homens avançam profissionalmente – e, se assim não fizermos, seremos péssimas mães. Ou seja, vivemos uma estrutura absolutamente machista. Aliás, machista, racista e classista – o que fica evidente a partir do exemplo das babás (majoritariamente negras e pobres) ficando com crianças para que mães feministas (brancas de classe média/alta) vão protestar. (Que feminismo é esse? Sororidade pra quem?)

A propósito, quem fica com os filhos das babás enquanto elas cuidam dos filhos das patroas? Quase certamente outras mulheres: familiares, amigas ou, ainda, outra mulher ainda mais mal remunerada e sem direitos do que ela. Foda. Fico estarrecida com como vivemos uma estrutura social baseada em opressão e dominação (e nem posso falar sobre isso com profundidade, pois só estou começando a perceber com alguma nitidez há bem pouco tempo).

Eu não aderi à greve. Não fui às manifestações, embora apoie integralmente a luta. Sabe por quê? Porque eu simplesmente não consegui ainda escapar à estrutura. Porque meu contexto de vida atual – profissional e familiar – não me permitiu tomar essa atitude. Ou, ainda, porque EU não consegui ainda me desvincular dessas engrenagens a ponto de romper com elas, ainda que um único dia no ano, para fazer dessa luta prioridade (o que muito me envergonha).

Talvez eu não esteja ainda consciente e engajada na luta feminista como gostaria. Mas estou caminhando e me dei conta disso, talvez pela primeira vez. Acho que, pela primeira vez, o Dia Internacional da Mulher mexeu de verdade comigo e me levou a um momento de consciência aflorando sobre diversos assuntos.

Agradeço aos ambientes e coletivos femininos (feministas ou não) que frequento hoje, e que me levaram a refletir (às vezes à força) para essa tomada de consciência que ganha crescente espaço em minha vida.

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