crise. não frescura

Meu filho teve uma crise grande, hoje. Começou com um chororô danado por causa de uma foto que ficava na geladeira, presa com ímã, na verdade um convite para o aniversário dele de 3 anos, com várias fotos. A foto ficava ali e toda hora ele e a irmã tiravam do íma e jogavam no chão, ela já estava amassada e rasgada, hoje a encontrei nas últimas, toda suja de banana mastigada. Peguei e joguei no lixo. Guga abriu a lixeira algumas horas depois, se deparou com a foto e pronto: degringolou.

Ele chorou por horas, revoltado comigo por ter jogado a foto fora. Dizia que queria a foto, que podia consertar: “Nós temos que pelo menos tentar, mamãe!”

Eu expliquei repetidamente porquê a foto não prestava mais, e que poderíamos fazer outra igual. Tentei explicar que tenho o arquivo original da foto, que podemos fazer quantas cópias quisermos. Ele não entendeu bem, e me disse que nunca seria igual àquela, porque “eu não vou dar os mesmos sorrisos”. ❤

Sustentei ao lado dele o limite (“Não, nós não vamos tirar a foto do lixo”) durante muito tempo, e ele às vezes acalmava, mas depois voltava à angústia inicial. Se revoltou comigo, disse que não queria mais morar com a gente, que ia morar na rua, que então eu ia morrer, se não pegasse a foto de volta.

“Eu quero que você morra!” Respirei fundo ao ouvir isso, na dúvida entre rir (o que não podia fazer, é claro) e ficar zangada… Mas, me colocando no lugar dele, pensei em como todos os filhos, sem exceção, em algum momento desejam que os pais morram, e me conformei que era normal e que fazia parte, e que eu não iria me ofender com essa bobeira.

Resisti à tentação que tive, mais de uma vez, de dar uma bronca nele, dizer que aquilo era frescura e que não era possível chorar tanto por causa de uma foto. Mas todas as vezes que a impaciência e essa reação vieram, eu consegui transmutá-las em resignação e mais paciência. Essa capacidade me surpreendeu. Fiquei feliz por ter conseguido resistir e me manter tranquila e empática, pois não é sempre que isso acontece. Acho que foi possível me manter assim, porque na verdade estava muito claro para mim que aquela crise não era por causa da foto, e sim de algo maios importante que estava por trás. A foto apenas estava servindo de gatilho para ele extravasar.

Foi mais de uma hora de choro e lamentos, até que a coisa começou a clarear. Ele estava sentado no sofá e eu me sentei na rede de frente para ele. Ele estava dizendo o quanto gostava da foto e como tudo era mais legal quando ele tinha 3 anos. “Eu não gostei que tudo mudou, mamãe. Eu quero que volte tudo ao normal.” Foi o primeiro indício do verdadeiro motivo da crise de choro.

– As coisas estão mudando muito, né, filho?, perguntei, empática.

– Sim.

– O que você não está gostando que mudou?

– Da minha foto que foi pro lixo. Eu não queria.

– É, eu sei que você não queria. O que mais mudou e você não queria que mudasse?

– Tudo!

Uma pausa. Depois, mais choro.

– Por quê você jogou a minha foto no lixo? Por quê você nunca faz o que eu te peço? Por quê você demora muito pra fazer as coisas?

– Que coisas você me pediu pra fazer e eu não fiz?

– Tudo! Você não fez suco pra mim.

– Gu, eu fiz dois sucos pra você, hoje. Eu não fiz o terceiro, porque era suco demais e eu estava fazendo outras coisas.

– Você não me ajudou a colocar a roupa. Eu não quero fazer tudo sozinho.

Pensei um pouco. Percebi que tinha passado boa parte do dia pressionando ele para que fizesse as coisas sozinho, como há algum tempo ele fazia e recentemente parou de fazer. Para que comesse sozinho e se vestisse sozinho, para que arrumasse a bagunça. Hoje foi um dia em que peguei particularmente pesado nessa pressão, porque já estava cansada de ficar arrumando e fazendo tudo para os dois. Mas para ele a coisa deve parecer desigual, afinal, eu faço tudo pela Cecilia, mas por ele, não. Não adianta dizer que é porque ele é mais velho e já sabe fazer… Para ela a coisa deve bater toda como descuido, abandono.

–Você está se sentindo desatendido hoje, não é, meu filho?

– Sim!

– Está achando que a mamãe não está cuidando direito de você?

– Sim!

– Meu amor, mamãe insiste em que você faça as coisas porque é bom para você. É importante você conseguir se cuidar, saber se vestir, comer sozinho, essas coisas. Mas eu também faço o que você me pede e que ainda não sabe fazer. E você sabe que às vezes a mamãe também se sente assim como você?

– Por quê?

– Porque eu também sinto, muitas vezes, que você não faz nada do que eu peço. Ou que demora demais pra fazer. Como você acha que eu me sinto pedindo pra você arrumar o quartão um montão de vezes? Ou pra você se vestir e você não se veste?

Silêncio. Ele pensando. Logo, nova crise de choro.

– Mamãe… Mas eu não quero crescer!

– Você não está gostando de crescer, meu filho?

– Não! É muito chato… Eu não quero que nada mude! Eu quero que tudo volte a ser como era antes…

Fiquei com peninha dele. Pensei em todas as mudanças que ele estava enfrentando desde o ano passado e no que ainda está para mudar: a chegada da irmã, a perda do avô, a gravidez da Lili – que, em breve, terá um bebê dela –, a mudança de escola iminente.

– É, crescer às vezes dói, meu filho…

– Por quê?

– Porque as coisas mudam e a gente sofre algumas perdas… Mas a vida é assim… As coisas mudam mesmo…

– Por quê?

– Porque a gente vai vivendo e as coisas vão mudando…

Aqui entre nós… Viver dói mesmo. Crescer dói mesmo. Como nós podemos rotular de “frescura” esses sentimentos tão profundos e tão nossos? Hoje comprovei, mais uma vez, que um ataque de birra nunca é apenas um ataque de birra, mas que existe uma necessidade desatendida por trás que é fundamental ser olhada e cuidada. Se tivermos tempo e paciência, a gente pode conseguir uma conexão bem profunda com eles, conhecer muito mais do que eles sentem, do que os incomoda, e se tornar mais íntimo, mais cúmplice. Mas é preciso disponibilidade.

– O que mais está te chateando? O que mais mudou e você não gostou?

– Tudo…

– Você está chateado com a gravidez da Lili?

Crise de choro.

– Eu não quero o bebê dela, mamãe… Eu não quero nenhum bebê nessa casa!

– Nem a sua irmã?

– Nem a Cecilia. Eu quero tudo como era antes…

– Antes da Cecilia nascer? Você queria que não tivesse a Cecilia nem nenhum bebê, que fosse só você de criança aqui em casa?

– Sim…

Pensei em perguntar sobre o avô e a mudança de escola. Mas vi que ele estava mais calmo e apaziguado, aliviado por já ter colocado para fora todos esses sentimentos. Achei que talvez fosse demais. Perguntei:

– Você quer vir aqui ficar junto da mamãe, na rede?

– Não.

No entanto, ele se levantou e veio. Sentou-se ao meu lado e eu o abracei. Fiquei acarinhando seu braço.

– Eu te amo, filho. Você é um menino lindo e muito amado.

Ele se recostou em mim e dormiu.

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