Cultura do estupro

Não faz muito tempo que isso ocorreu, foi há algumas semanas. Eu estava na papelaria com meu filho correndo de um lado para o outro, animadão. O dono da papelaria, um senhor que sempre nos vê lá, estava contando que tinha duas filhas adultas e que “meninas dão muito trabalho”.
Em um dado momento, ele olhou para o meu filho e disse, com um suspiro:
– Ah, se eu tivesse um meninão assim! Eu ensinava ele a beijar muito as menininhas.
Eu dei um sorriso amarelo, olhei para o outro lado e disse apenas:
– Ele é criança, não tem que pensar nisso ainda.
O homem insistiu:
– Mas agora é que é hora de aprender! Aprender a ser machão! Blablabla etc.
Eu não consegui ignorar. Respirei fundo, olhei nos olhos dele e disse:
– Eu ensino ele a respeitar as garotas, não a beijar.
Antes que eu saísse de mãos dadas com meu filho e sacolinha das compras a tiracolo, ele balbuciou, sem graça:
– Mas eu também ensino a respeitar… Pode beijar e respeitar…
Podem achar que fui grosseira com o senhor “bem intencionado”, mas é com esses pensamentos e atitudes que se cria uma cultura de estupro. Uma cultura na qual uma criança de 4 anos é ensinada a “beijar todas as meninas”, como se isso fosse um valor. Independente das meninas quererem ou não. Uma cultura na qual meninas não são ensinadas a beijar garotos – porque, né, tem que se dar o valor –, o que faz com que, simplesmente, a conta não feche. Se meninos aprendem desde cedo que beijar meninas é muito importante, mas meninas são ensinadas a não beijar garotos, porque precisam se preservar, logo meninos começarão a achar que devem desrespeitar a negativa das meninas e forçar o beijo, para conseguirem o que querem… E assim surgem as cantadas insistentes, a “pegada” mais bruta na night, o beijo forçado e – olha ele aqui – o estupro.
Pode parecer bobeira, mas não é. Enquanto não educarmos crianças para serem crianças e, por fim, adultos dignos que respeitam uns aos outros, indiscriminadamente – sejam homens ou mulheres, héteros ou gays, cis ou trans, brancos ou negros, ricos ou pobres –, continuaremos vivendo uma cultura machista, racista, homofóbica, classista.
Minha resposta a esse senhor resumida. Havia muito mais que eu poderia ter dito:
Que crianças não devem ser estimuladas a beijar outras crianças ou a ter qualquer atitude adulta e não infantil.
Que devemos respeitar seu tempo de crianças e não sexualizar suas relações tão cedo.
Que devemos respeitar o outro quando não quiser ser beijado.
Que devemos nos respeitar também e não nos forçar a algo porque nossos pais assim desejam.
Que temos o direito de dizer não e o dever de respeitar o limite do corpo do outro.
Que um menino pode não querer beijar meninas, e sim outros meninos, e tudo bem.

Eu sigo educando meu filho a respeitar as meninas, os meninos, as crianças, os adultos… Enfim, as pessoas de um modo geral.

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