comunicação, empatia e não-violência para uma educação saudável

Passo a mão na testa do meu filho dormindo e penso nos nossos embates durante o dia, no que dividimos e no que aprendi de tudo isso. Sinto-me triste. É algo que me impressiona quão pouca abertura temos para receber o questionamento das crianças. Quão pouco espaço para a tolerância e a empatia, para o diálogo, para o limite amoroso aplicado com generosidade e paciência. Para a não-violência, a ausência do uso de ameaças e jogos de poder.

Hoje eu tive momentos de absoluta falta de paciência com Gustavo, por motivos que em parte diziam sim respeito a ele, mas também falavam sobre a minha sobrecarga dos últimos dias com Cecilia dormindo mal, Daniel estudando até tarde e eu ficando longos períodos dos dias a sós com os dois, em casa e na rua, geralmente com Cecilia no colo. Passei os últimos dias em absoluta função com os dois. Por pelo menos dois dias estive com Cecilia no colo praticamente o tempo todo (incluindo durante o sono, já que quando a colocava na cama, ela chorava).

Durante o café da manhã, eu me sentia absolutamente impaciente, cansada e triste, quando Gustavo – que queria que eu brincasse com ele de qualquer maneira, mesmo já tendo lhe dito que não iria brincar naquela hora, porque queria tomar café da manhã e fazer coisas de adulto – sentou-se sobre minhas pernas fazendo bastante peso e se recusou a sair, quando lhe pedi. Estávamos nesse cabo de guerra (eu pedindo a ele que saísse e ele ficando), quando Cecilia se sentou sobre alguns bloquinhos de encaixe que a machucaram, e de cima dos quais ela não conseguia sair. Tentei tirar Gustavo do colo para acudi-la, que chorava, mas ele se agarrou a mim e fez mais peso, machucando minhas pernas. Eu pedi novamente que saísse e, quando ele me ignorou novamente, me descontrolei e gritei como nunca antes: “Sai do meu colo, agora! Sai!”

Ele saiu imediatamente e me olhou com os olhos arregalados. Eu também arregalei meus olhos, assustada comigo mesma e com o grito que tinha proferido. Sem muito pensar, quis logo pedir desculpas. Mas então achei melhor não dizer nada imediatamente, e sim respirar e me acalmar. Peguei Cecilia no colo e o bloco em que estava sentada, parou de machucá-la – ela ficou bem. Gustavo, passado o susto, começou a chorar um choro sentido. Eu o olhei nos olhos, cheia de lágrimas, mas não disse nada ainda. Continuei respirando, absorvendo toda a sua decepção e a minha própria, tentando entender os muitos motivos que me levaram àquela reação e empatizando com ele, que estava genuinamente magoado, com toda razão. Fiquei olhando em seus olhos, me sentindo culpada e ao mesmo tempo tentando aceitar minha própria impaciência, que eu sentia por muito motivos concretos – necessidade de ter meu espaço respeitado, de tranquilidade, de descanso e até de saúde (já que a coluna anda bastante sofrida), entre outras necessidades básicas. Ao mesmo tempo, tentei identificar as necessidades dele: atenção, reconhecimento, amor, segurança, conexão. Foi bom esse momento de pausa que nos dei. Assim que me senti mais calma, ele disse, ainda chorando: “Eu não quero grito, mamãe”. Fiquei novamente mortificada por ter gritado, mas aliviada e feliz por ele ter conseguido verbalizar dessa forma sobre o que eu havia feito que o tinha incomodado.

Estendi minha mão e segurei a dele. Respondi: “Eu também não quero, meu amor. Me desculpe. Posso te dar um abraço?” Ele disse que sim, nos abraçamos. Ficamos assim durante um tempo, até que ele disse: “Eu não quero mais abraço”. Nos afastamos e eu disse novamente: “Me desculpe, filho. Eu não quero gritar com você. Você entendeu por quê eu fiquei chateada?” Ele fez que não. “Eu fiquei chateada porque você se sentou em cima de mim e estava me machucando. Eu pedi para você sair mais de uma vez e você não saiu. Mamãe ficou nervosa.” (Optei por não mencionar o machucado da irmã para que a questão não se tornasse sobre ela. A questão ali éramos eu e ele.) Completei: “Mas eu não estava certa, filho. Eu não tenho o direito de gritar com você, isso foi errado. Você invadiu meu espaço e não saiu quando eu pedi, isso também está errado, você me desrespeitou. Mas, quando grito, eu também desrespeito você. Não quero te desrespeitar. Quero que você me respeite e que eu te respeite. Tudo bem?”

A resposta foi afirmativa. Novamente pedi desculpas, novamente nos abraçamos. Ele me pediu desculpas. Brincamos de enlaçar os mindinhos em sinal de pazes. E seguimos numa boa. As necessidades dele de atenção, de afirmação, de reconhecimento, de amor etc. Foram supridas. As minhas, nem tanto… Mas tive a oportunidade de colocar os incômodos em seus lugares e reestabelecer nossa conexão, o que me levou a encontrar uma nova dose de paciência.

Quantas vezes gritamos com as crianças muito mais por questões nossas do que por questões que realmente têm a ver com eles? Ele de fato me desrespeitou. Mas eu sei que só gritei porque estava cansada, porque já estava impaciente desde o dia anterior, após dias seguidos de dedicação integral e ininterrupta, noites mal dormidas etc. Ele, sozinho, não merecia aquele grito. Já eu, precisava dá-lo.

Ainda assim, me entristeço pensando em como somos injustos com as crianças. Como exigimos deles um auto-controle que não temos. Compreensão que não temos. Independência que não temos. Nós, que somos adultos, que deveríamos nos controlar e ter paciência; elas ainda estão aprendendo.

Ontem, conversando com um grupo de mães, uma das presentes comentou sobre algumas crianças que não estavam se relacionando de forma legal umas com as outras; não estavam se comunicando bem nem se entendendo. Outra mãe perguntou: “Mas e nós, estamos nos relacionando bem uns com os outros? Parece que estamos nos entendendo?” A verdade é que eles estão aprendendo conosco esses mecanismos de usar ameaça quando querem alguma coisa, de manipular com choros ou carinho, de gritar e de bater (e ainda acreditar que estamos com a razão, porque “você está me irritando” (a culpa é sua, não minha; o agente é você, eu estou sendo irritada). Não assumimos a responsabilidade por nossos próprios sentimentos, que dirá de nossas atitudes? Mas exigimos que os pequenos o façam.

Lembrei-me que ainda hoje, no almoço, recebi a sugestão de usar a técnica do livro Nana, nenê com Cecilia, para “ensiná-la” a dormir a noite toda em seu berço. Já tinha recebido as mesmas sugestões quando Gustavo era bebê e cheguei a tentar (mas após alguns dias fiquei agoniada com o choro, ouvi algumas críticas à técnica que me levaram a ter dúvidas, e desisti). Diferentemente das outras vezes, desta finalmente consegui articular com todas as letras o que sou contra esse livro. Continuaram insistindo que era bom e importante, mas consegui me manter tranquila e continuar respondendo “sou contra”. Ouvi ainda um questionamento muito doido sobre se não seria por esse tipo de “permissividade” (dormir junto à noite ou dar colo quando o bebê chora) uma das causas da corrupção brasileira – ao que eu respondi que não acreditava nisso, já que não acredito que amor e acolhimento possam ser causas de comportamentos egoístas ou criminosos.

Esses são os valores do mundo em que vivemos: acolhimento, compaixão, empatia, carinho são tidos como permissividade e falta de correção. As crianças são muitas vezes vistas como manipuladoras, caprichosas, mimadas. E quem as acolhe com carinho as está mimando. Na verdade, os manipuladores somos nós, que queremos que elas ajam como nos agrada, que nos obedeçam para nosso próprio bem e a despeito do delas – e ainda defendemos fazemos isso por elas, para educá-las. Acreditamos que as crianças começam a nos manipular com manhas e birras mal intencionadas ainda quando bebês, desde os primeiros meses, em vez de perceber que elas aprendem isso conosco, à medida que vão crescendo. Em idade tão tenra, o choro nada mais é do que sua única forma de comunicar que alguma coisa não vai bem com ele, seja frio, fralda suja, fome, sono, desconforto, medo ou necessidade de acolhimento, de aconchego, de conexão – necessidades, aliás, que também nós adultos temos, e pelas quais muitas vezes choramos.

A verdade é que chorar é uma atitude não muito bem quista em nossa sociedade, assim como os próprios sentimentos ditos negativos – tristeza, raiva, ansiedade, entre tantos outros. Vivemos em uma sociedade que busca respostas rápidas e o mínimo contato possível com nossos desconfortos e – por favor! – com os dos outros. Buscamos meios para extinguir a qualquer custo esses sentimentos e os comportamentos “indesejados” que derivam deles, sem tentar compreender – e sanar – o que está por trás dos mesmos – necessidades tão básicas e inerentes ao humano, que todos sentimos. No âmbito da educação, esses meios passam por gritos, ameaças, condições, castigos físicos ou não, distrações, punições e premiações, barganhas, avaliações, entre outros… Qualquer coisa pra fazer aquela criança parar de chorar. Qualquer coisa para aplacar a culpa que sinto de não estar tão presente quanto gostaria. Qualquer coisa para acabar com a birra no supermercado e a vergonha que sinto com o olhar das pessoas à minha volta…

No mundo adulto, inibimos nossos sentimentos e comportamentos indesejados com métodos semelhantes, como punições e premiações, barganhas, gritos, ameaças e distrações (que no nosso caso são outras, como entretenimentos que nos retiram do contato com o “mundo real”, como videogames e televisão, ou que nos dão rápida, mas passageira sensação de felicidade e preenchimento, como o consumo excessivo, além de vícios como bebida, cigarro, drogas em geral, etc.). Mas usamos também de outros recursos ainda mais radicais, para efetivamente cessar o sentir – como o uso de entorpecentes e de drogas do humor (Prozac, Valium, Ritalina, entre outras, contra os indesejados estresse, nervosismo, tristeza, ansiedade, agitação etc.), a exclusão sumária de pessoas com as quais não sabemos ou não queremos lidar em nossas vidas, além do ato de crimes contra as pessoas que nos ferem (ou seja, nos lembram de nossas dores), sendo a forma mais radical de extinguir um comportamento indesejado (e nosso sentimento negativo em relação a ele): o homicídio.

Chegando aqui, respiro. Realmente é triste perceber como interpretamos mal e damos pouco acolhimento às crianças. Mas também como interpretamos mal e pouco acolhemos a nós mesmos e aos outros adultos. Provavelmente isso acontece porque assim fomos educados. Fomos ensinados a não empatizar, a não acolher, a não olhar ou cuidar da dor e das necessidades – nossas e dos outros. E continuamos educando dessa mesma forma. Mas se queremos mudar alguma coisa em relação ao mundo, à sociedade em que vivemos e, principalmente, em nossas relações interpessoais, mas também intrapessoais (com nós mesmos), precisamos mudar essa educação e essas relações, em algum momento.

Eu vejo meu filho dormir embalado na rede, encostado em meu braço direito, enquanto, com o esquerdo, aninho sua irmã. Olho para o Gustavo, carinhoso e acarinhado, dormindo apaziguado, tranquilo, sereno e seguro… Fica muito claro para mim o quanto ele e a irmã só precisam ser amados e cuidados em suas necessidades, aprender a entender e a respeitar as necessidades dos outros e estar atentos e em contato com eles mesmos, percebendo os próprios desejos, compreendendo e aceitando as consequências das próprias escolhas – basicamente, como todos nós.

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