feliz dia das mães – com vontade de sair da bolha

bolha maternidade

Sinto-me feia.

O dia das mães começa assim, com essa forte percepção: sinto-me feia.

Coloco uma roupinha ok, arrumo os cabelos (tenho vontade de cortá-los), eu os penteio de forma comportada, com jeito de “menininha”, depois os solto e bagunço, de forma rebelde… Nada adianta.

Percebo que preciso me depilar, que minha sobrancelha está imensa, crescendo por sobre as pálpebras, que o buço, embora fino, está nêtido nos cantos das bocas, que as olheiras estão imensas, como um panda, que a pele não é mais o que já foi.

Coloco uma calça jeans, celebro que coube (mesmo não sendo de gestante)! Mas em pouco tempo, começo a não me sentir bem com ela. Mudo a roupa, de novo e de novo. Desisto.

Percebo que a questão não é a roupa e nem mesmo a cosmética. A questão é meu olhar. Quando me olho no espelho, vejo a janela na alma, e a alma não está feliz, não está bonita. Falta auto-estima.

Falta olhar para si com carinho, com dedicação e com generosidade.

Falta reconhecer as próprias necessidades, o que é importante e que precisa cuidar.

Falta cuidar-se. Arranjar tempo para tal.

Meu dia das mães começa com a percepção clara de que amo ser mãe, mas não posso mais ter dedicação exclusiva. Precisamos rever o contrato. Preciso começar a delegar mais e ter mais tempo para mim para cuidar de assuntos não de maternidade. Cuidar da mulher, da esposa, da profissional, da amiga.

Preciso sair sozinha, sem bebê nos braços. Passar um dia inteiro na rua, não apenas (quando muito) por três horas. Ser mais leve, mais autônoma e recobrar parte da minha liberdade.

Pegar um cinema só, imersa em meus pensamentos e no filme. Beber um chopp com amigas que não vejo há muito, conversar com adultos, chegar alta em casa. Sair com o marido, namorar, conversar por mais de meia hora e sem tanto cansaço, olhá-lo nos olhos, perguntar genuinamente como ele se sente.

Preciso redescobrir meus outros eus e cortar pela primeira vez o que ficou de um cordão umbilical invisível – que tornará a ser cortado muitas e muitas vezes na vida, em mini separações suscessivas.

Este olhar para si mesma e para o outro como seres separados que possuem necessidades diferentes e, portanto, precisam se cuidar de forma independente, mesmo que às vezes isso signifique ter de negar a necessidade do outro quando elas forem incompatíveis, me parece parte do crescer e amadurecer de uma mãe e de um bebê. Ambos devem ir crescendo e cada vez mais se enxergando como indivíduos que querem e sentem as coisas à dua própria maneira e que precisam cuidar dessas diferenças.

Sou realmente grata e realizada por ser mãe de dois seres deliciosos, com quem o convívio é repleto de prazer e de aprendizado. Sou grata e realizada por ter tido a possibilidade de ser mãe de forma tão presente para minha filha nesses sete meses, com amamentação exclusiva até os seis e em livre demanda ainda agora com a introdução alimentar.

Por outro lado, está na hora de começar a me ausentar um pouco, de começar a procurar novos rumos em outros projetos, ainda que de forma lenta, homeopática, que me permita pesquisar e entender para onde quero ir, o que quero fazer, como quero me reinventar daqui pra frente.

Eu me sinto perdida ao pensar em sair da bolha que é a maternidade para mães em exclusividade. Não sei exatamente o que procuro, já não sei mais o que me faz feliz e me realiza. Quero experimentar, conhecer pessoas, investigar caminhos.

Quero dedicar mais tempo e qualidade de lazer e cuidado a mim mesma, desde a depilação há muito adiada e a prática de yoga, aos espaços de divertimento adulto que me trazem alegria e que ficaram esquecidos. Quero saber o que outros adultos de fora da bolha andam fazendo e vivendo. Quero rir, quero me entusiasmar.

Viva o dia das mães. Viva a celebração de algo que nos modifica e nos transforma tão radicalmente e que nos ensina, inclusive, sobre a impossibilidade de se dedicar apenas a isso, por mais delicioso que seja, de se definir apenas por um aspecto da vida, e sobre a necessidade de se respeitar enquanto ser integral, e, assim sendo, servir de exemplo para que eles também aprendam a ser de forma integral e autêntica, com respeito às próprias necessidades e às dos outros.

E vamos, que está na hora de sair da bolha.

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