Primavera das mulheres

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Foi uma noite gloriosa e eu cheguei em casa eufórica, sem conseguir dormir. Saí cedo demais do teatro, louca para estar ali, com elas, brindando, festejando, primaverando. Fiquei pensando no que vi, no que sentimos nós todas, juntas, unas, na catarse coletiva que foi aquele show.

Elas alcançaram tudo. Todos os temas e sentimentos, tudo o que debatemos estava lá. Os assuntos que discutimos, o que nos assola, o que nos choca, o que nos comove e nos encanta. Com gentileza e, em outros momentos, com dureza. Com meiguice e doçura ou com violência. Me senti acarinhada, abraçada, arrepiada, estapeada, chacoalhada, acordada por essas mulheres. Elas disseram tudo que eu gostaria de dizer e talvez não tivesse percebido, e de um jeito mais lindo e sensível do que eu poderia fazer.

“O show nasceu de um sonho e de um pesadelo”, disse Laura Castro. E assim se fez o espetáculo: de sonho a pesadelo, abordou os temas que nos cercam a nós, mulheres: mães, não mães, solteiras, casadas, hétero, lésbicas, brancas ou negras. Um orgulho danado no peito de ver essa primavera acontecer, essa gente desabrochar, esse coletivo florir. Um orgulho imenso de saber que faço parte do movimento, dessa revolução amorosa. A Primavera das Mulheres foi um sonho que sonhamos juntos, sem saber.

Cheguei em cima da hora ao teatro. Quase não fui, sem saber se devia, porque tinha estado doente. Sem saber se deixava a pequena em casa com o pai (medo dela chorar, precisar do meu peito, do meu cheiro) ou se a levava comigo (dúvida se seria ruim para ela, se estranharia o local, a multidão, o barulho…). Fui com ela. (Decisão tomada em cima da hora, ao sair de casa.) Ao chegarmos quase atrasadas, encontrei os rostos conhecidos das santas – ou melhor, saaantas. As mulheres do coletivo que me fizeram acreditar que somos capazes de construir um mundo melhor. Não amanhã, mas hoje. Estavam juntas: as que eu já conhecia e frequentava, as que conhecia virtualmente ou não conhecia. Não importava. Éramos irmãs, todas. Estávamos juntas ali, como uma irmandade, uma comadreria. Como se nos conhecêssemos e nos cuidássemos desde sempre. E estarmos ali juntas nos dava força. Nos dava coragem. Um sentimento de potência e vivacidade indescritível.

O show começou e percebi que a música não seria problema para minha filha, amarrada a mim no sling. Mas as palmas me preocuparam. Ao término de cada música, vinham as salvas. Cecilia estremeceu de susto, nas primeiras. Pensei que teria de ir embora, mas ela logo me tranquilizou: virou o rosto para trás, querendo ver o espetáculo. E eu, que pensara tê-la no sling dormindo a noite toda, coloquei-a no colo virada para o palco e ela ficou acesíssima, atenta, parceira! Ela também fez parte da primavera das mulheres. E eu me senti conectada, por meio dela, a todas as gerações de mulheres da minha família; às minhas ancestrais.

Logo de início, Diana, a meu lado, começou a chorar. Eu ri! De alegria e também de emoção. O show foi crescendo e Aline Valentim entrou em cena. “Negra!”, gritavam. Ao que ela respondia: “Eu sou!”. Arrepiei. Chorei pela primeira vez na noite, ao som dos atabaques de Diana Nascimento e diante da divina dança afro de Aline.

Seguimos alternando trejeitos doces e femininos de Elisa Addor com a voz potente de Laura a reclamar que “a porra da buceta é minha!”. Intercalavam-se meiguice e firmeza; carinhos e socos na cara. Foi quando Laura contou a história do menino herói… E eu caí em pranto como quem se põe no lugar de outra mãe e, por um instante, se torna ela. E todas as mães que ali estavam se tornaram a mesma e choraram. Como se tornaram em seguida a mãe do menino Victor, lembrado no texto de Barbara Lito, e também o seu assassino. O choro foi convulsivo.

Depois falamos de parto, de amor, de duas mulheres com três filhos, de Mariana e de transexualidade… De temas leves, bonitos e engraçados a duras e tristes realidades, o que prevaleceu o tempo todo foi a beleza. A sensibilidade e a delicadeza que tiveram para expressar o universo que existe dentro da gente. Os sentimentos mais femininos. Mais feministas. Mais potentes e vibrantes.

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Ao final, quando nos unimos todas num abraço – plateia, atrizes, cantoras, musicistas, fotógrafas, produtora, santas e putas –, eu pensei na vida, com seus caminhos surpreendentes, que me levou a estar ali… Pensei na minha mãe e em como eu gostaria que ela pudesse estar comigo, assistindo, de mãos dadas, à materialização de tantos sonhos e anseios comuns a todas nós. Ela seria, talvez, capaz de compreender tudo o que sinto e o que me tornei depois que ela partiu. Ela seria convidada a conhecer um outro feminismo, diferente do que viveu, quando tinha a minha idade. Um feminismo que não pretende queimar sutiãs, vestir calças e se equiparar aos homens; quer poder vestir o que quiser, amar quem bem entender. Quer escolher entre trabalhar e ficar em casa com os filhos sem que essas sejam imposições, mas decisões que vêm dos desejos profundos do ser. Ela iria se maravilhar! Eu iria amar dividir todas essas descobertas com ela…

Eu sorri e chorei. Chorei profundamente e ri muito também, alto, jogando a cabeça para trás, com minha filha nos braços, me olhando e também sorrindo. Minha pequena grande companheira estava ali nos meus braços, e, guardada comigo, continuava a maior companheira de sempre – não no plano físico, mas, ainda assim, perfeitamente presente.

O círculo de mulheres estava completo. Mesmo as que ali não estavam em presença física, talvez não o saibam, mas a verdade é que estávamos juntas, todas juntas de mãos dadas, em roda, cantando. Todas juntas. Eu, você, elas. Todas as mulheres da terra.

“Companheira me ajuda, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor.”

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PS: Tem mais Primavera no dia 4/02. Gostaria de levar todas as mulheres que conheço.

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