cidade partida

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Passei o dia todo remoendo essa tristeza aguda de sentir tão pouca esperança no estado de coisas que parece ter se instalado no país (no estado, na cidade, nas relações humanas em geral). Essa divisão entre mundos, essa dicotomia. Chegamos a uma encruzilhada, e por qual caminho seguir não está claro. Mas o que parece claro é que quem escolhe ir por um lado deve necessariamente odiar quem escolhe ir pelo outro e vice-versa. Não existe coexistência possível, não existe tolerância ou diálogo. Vá pelo seu lado, eu sigo pelo meu. E cada um grita para o outro, em seu caminho: “ignorante”, “burguês”, “burro”, “elitista” e assim em diante.

A violência que tomou conta da Zona Sul do Rio de Janeiro, nos últimos dias, é chocante. Chocante pra quem mora na área e foi interrompido em sua vida cotidiana pacífica e em seu lazer por uma ameaçadora multidão que corre em sua direção, rouba, esmurra e saqueia. Invade nosso território, nos tirado a ilusão anterior de conforto e segurança, ameaçando nossa vida e família. É chocante e desagradável, dá vontade de sair correndo, mudar de cidade, encontrar outro lugar mais tranquilo para criar raízes e ver crescerem os filhos… É chocante e assustador. Mas o mais perturbador é parar para olhar um pouco além e perceber que, a bem da verdade essa violência não é uma novidade alguma nem é tão surpreendente assim. Ela já existia há décadas nesta cidade, em outros formatos, apenas não tinha se espalhado dessa forma, ainda, pelas areias de Copacabana e de Ipanema.

Mas a violência já existia. Um pouco distante de nós, talvez. Lá na baixada, na favela, lá longe. Lá onde a polícia pode dar tiro de metralhadora porque de alguma forma o local não se enquadra como “ambiente urbano” (disse o ex-policial militar e comentarista de TV Rodrigo Pimentel). Lá onde quem mora aqui geralmente não sobe e não quer muito saber a respeito.

Não sejamos ingênuos. Essa é uma guerra de classes há muito declarada, mas que somente agora desce ao asfalto. A Zona Sul demorou demais para prestar atenção ao que acontece nesse outro território, distante de si, e agora colhe os frutos aqui bem perto. A gente se sente injustiçado com isso, porque leva uma vida pacífica e não tem culpa de nada disso que acontece “lá”. Trabalhamos, pagamos nossos impostos e é dever do Estado usá-los para melhorar avida dessa gente – se ele não melhora, a culpa não é nossa. Ou é?

O que a gente ignora – por livre e espontânea vontade – é que temos responsabilidade, sim, sobre tudo que está aí. Porque somos responsáveis enquanto sociedade. Se negligenciamos o outro, nos omitimos, viramos o olhar para sua miséria, estamos sendo coniventes com ela. Se aceitamos a opressão de uns sobre outros, nos tornamos parte dessa opressão.

Será possível que as classes média e alta não tenham enxergado ainda a força da opressão que atinge as camadas mais pobres da população? A opressão de morar sem condições mínimas e de perder horas e horas do dia em transportes públicos que não funcionam como deveriam. A opressão de aceitar subempregos, salários baixos, humilhações diárias. A opressão de ser categorizado, marginalizado, tachado de criminoso, excluído dos pontos de lazer público da cidade, de ser olhado de lado com desconfiança. De ver conhecidos e amigos sofrendo violências diárias nas mãos de traficantes, bandidos e policiais, por vezes até sendo mortos e culpabilizados por isso, mais uma vez com o rótulo de criminosos.

O que fizemos até hoje a respeito? Se não enxergamos ainda foi porque não quisemos. Clamamos pela melhoria das condições de vida nas favelas, nos conjuntos habitacionais, nos complexos? Clamamos por saneamento básico, pelo fim da matança de jovens, pelo fim da violência de criminosos e policiais contra a população trabalhadora?

Não. Em vez disso, clamamos ainda mais pelo separatismo. Pelo fim das linhas de metrô que ligam o subúrbio à Zona Sul, pela interceptação de ônibus que tragam pra cá os marginais, como os chamamos – não sem alguma razão*… Entre outras intervenções no direito de ir e vir. Mas aguardemos um pouco essas medidas se consolidarem, e então, com certeza, vamos reclamar ao ter de pagar mais passagens para domésticas, porteiros e outros trabalhadores; ou quando eles começarem a chegar atrasados no trabalho por conta da distância e dificuldade de locomoção. Vamos achar um absurdo e chamá-los de vagabundos, dizer que não querem trabalhar. [*mar.gi.nal. s.f. e s.m. Pessoa que vive à margem da sociedade.]

A percepção da desigualdade em que vivemos e da falta de empatia que temos pelo outro me é sempre dolorida. Lembro-me muito claramente como foi doloroso olhar nos olhos de um menino de 10 anos, vê-lo estender a mão até o meu pescoço e arrancar o cordão que ali estava – cordão que havia sido um presente de dia das mães, dado pelo meu marido, com um pingente simbolizando nosso filho. O cordão foi embora junto com o menino, e eu nunca esqueci do olhar duro, envelhecido, de alguém que havia perdido a inocência. Mesmo assim, só consegui ver ali um menino. Foi o que me doeu mais. Um menino mais novo que o meu sobrinho.

Meu sobrinho é um garoto doce, ingênuo, amável. Uma criança que claramente foi amada, cuidada e protegida. Que teve sua infância preservada e que começa a crescer só agora, a passos lentos, à medida que se aproxima dos 13 anos de idade. Ele teve mãe, pai, irmãos e toda uma família que lhe serviu de referência, que o amou e deu exemplos bacanas para ele. Ele não conheceu violência, dureza ou desamor. Morou em boas casas, frequentou boas escolas. Ele sabe que tem um futuro pela frente, que tem perspectivas. Hoje é um pré-adolescente legal.

Volto para o olhar duro e envelhecido do outro menino. Que vivências terá tido na infância? Como chegou até ali? Aquele olhar impiedoso e não infantil, como chegou ao seu rosto? Quanto de desamor, de violência, de rudeza, de indignidade deve ter havido em sua vida para que ele se tornasse aquela criança embrutecida, sem inocência? Por que essa criança não teve sua infância protegida? Isso não constitui um dever do Estado? Não deveria mesmo ser responsabilidade de toda a sociedade, preservar essa infância, cuidá-la? Por que isso não ocorreu? Por que não lhe foram dadas as mesmas oportunidades?

Sinto vontade de chorar por aquela criança. Por todas as crianças que não puderam ser amadas e cuidadas, que não tiveram o mínimo para crescer em dignidade. Sinto vontade de chorar também por seus pais, que talvez não tenham tido alternativas para cuidá-las melhor.

E tenho dificuldade de entender, confesso, em um momento como este, que a maioria de nós, pessoas privilegiadas em cuidados, oportunidades e educação, não sejamos capazes, na maior parte das vezes, de nos comover com essas crianças e sua realidade. Me choca, tanto ou mais que as cenas de violência que se espalharam por Copacabana no último final de semana, o ódio que vem sendo destilado pelos privilegiados, que negam-se a ver nessas crianças de outros os próprios filhos. Como poderiam ter sido, caso não tivessem recebido o amor e o cuidado que tiveram. Eu olho para essas crianças, todas elas, e tudo que vejo são meus sobrinhos e filhos, seus rostos, seus olhares. E fico à beira do desespero tentando imaginar o que houve com elas para chegarem até ali.

A maioria das pessoas de classes média e alta não enxerga essas crianças como crianças, tampouco os adultos como seres humanos. Existe uma diferenciação, um afastamento – que talvez torne tudo mais fácil, de alguma forma, uma vez que nos isenta de certa culpa –, que acaba por originar esse separatismo social e geográfico que vivemos. Uma não identificação tão grande em relação ao outro que gera a dicotomia, o embate entre “nós” e “eles”. Sendo nós, os “cidadãos de bem”, e eles, os bandidos.

Cidadão “de bem” se comove com morte de criança síria afogada na fronteira com a Europa, mas não se comove com morte de criança preta e favelada. A não identificação e o distanciamento em relação à última é tão grande que gera essa terrível indiferença. O cidadão de bem pode até falar mal da política de recepção dos refugiados na Europa, mas não da atuação da PM, que deveria mais é “baixar o cacete nesses bandidos”. (Quando fala mal, é porque acha que ela interviu pouco.) Em seu ponto de vista, esses jovens deveriam estar presos, esquecidos, invisíveis, quiçá mortos. É pena que a redução da maioridade penal não tenha chegado ainda a tão tenra idade (mas, quem sabe, um dia?).

O que mais me desola é ver esse discurso reproduzido por amigos. Pessoas boas, mas tão imersas nesse distanciamento do outro, que acabam repetindo os bordões “tem que dar porrada nos bandidos”, “eles merecem”, “imagina se tivesse sido com você”, “bandido bom é bandido morto”. E assim chegamos a mais um tipo de violência que tem transbordado na cidade: a violência no sentimento e no discurso de ódio.

O cidadão de bem cheio de direitos e razão às vezes me mete mais medo que o bandido comum. Porque ele se acha certo, se acha no direito, se julga merecedor, de alguma forma. Acha que representa o bem, a justiça. Assim como um fanático religioso crê que luta e mata por Deus, o que o torna mais perigoso e desesperado, ele realmente crê que suas ações são justificadas e que está agindo corretamente. Mesmo quando seu discurso e/ou seus atos são tão ou mais trágicos que aquele que os originou.

Aí você, cidadão de bem, está na rua voltando da praia e vê um grupo de vinte pessoas correndo na sua direção, se arma e parte pra cima delas. Algumas podem até ser criminosos, mas quem garante que todas sejam? Como você saberá distinguir? Quem você irá escolher para dar o troco? Quem parece suspeito, à primeira vista?

E assim acabam baleados por cidadãos comuns ou pela polícia: um adolescente que entregava jornais, um rapaz que fugia da mesma multidão que você, um garotinho de dez anos à porta de casa com um celular na mão, ou, mais recentemente, um menino de 10 anos que corria pra comprar uma bolinha. E nós, permanecemos impassíveis. O crime quase não ganha os jornais, que dirá as mídias sociais. A tolerância que a Zona Sul demonstra em relação a essa face da violência é de cortar o coração. A favela grita, manifesta. A Zona Sul ignora. Talvez o mesmo aconteça em relação aos arrastões: nós de cá, sofremos e esbravejamos; eles de lá, ignoram. Eles e nós. Cidade partida.

Em outro local, em outras circunstâncias, por motivos um pouco diferentes, mas dentro de uma lógica parecida, um jovem estudante brasileiro foi baleado e morto pela polícia, no metrô. Suspeito (julgado e sentenciado) por terrorismo. Quem chegou a essa conclusão e por quê? O que fazia dele suspeito? Assim como o que faz esses jovens sentenciados aqui suspeitos? Características de classe, raços de raça, cor? No caso do estudante em Londres, o Brasil se indignou. Mas cá estamos, perpetuando o mesmo tipo de atitude…

Você acha que não é a mesma coisa? É tudo a mesma coisa. Todos esses casos são sombras de preconceito e de ódio. Ódio pelo outro, pelo diferente de si. Pelo que nos ameaça. Nós x eles. Alimentar esse discurso é colocar lenha na fogueira de uma guerra civil que pode estar começando. Não se esqueça que temos responsabilidade também pelo que dizemos e propagamos.

Acredite, eu também me sinto acuada. Eu também acho essa situação de barbárie injusta comigo e com minha a família. Eu, que procuro ser muito correta com os outros em minhas relações, no trabalho, no dia a dia, que procuro ensinar valores humanos para meu filho e criá-lo com amor e respeito e, claro, em segurança, também não acho justo sentir medo ao sair às ruas com ele. Não acho justo termos cerceado nosso direito de ir e vir. Mas, até aí, também não acho justo que outros tenham.

Então, se eu parar um minuto para pensar, verei que o cerne do problema está em nossa sociedade, que cerceia inúmeros direitos, alguns ainda mais básicos, de um sem número de pessoas. Pessoas distantes de mim e nem por isso menos humanas. Pessoas que têm tanto direito quanto eu de criar os filhos em segurança. Que têm direito a seu território pacífico e a não serem invadidas por policiais truculentos, seguros de que têm razão, ou por traficantes que lutam como se não houvesse amanhã (porque se você parar pra pensar, na verdade não há). Crianças que têm tanto direito quanto meu filho de serem criadas em lares afetivos, respeitosos e com o mínimo de condições para uma vida digna. Jovens que têm direito de querer ir à praia no final de semana.

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