esperando Cecilia

Barriga_9-29_03_editada

Você se agita e pula e mexe e cutuca o dia todo, dentro da minha barriga. É engraçado conviver com a sua presença dentro de mim, o dia todo, se mexendo, mostrando que está aqui, se fazendo presente. É engraçado não poder compartilhar com ninguém, nem mesmo seu pai, que só pode ser informado, mas não tem como saber o que é isso, como é seu movimento, sua atividade, como é ter sua presença em mim, desde agora.

Você já existe. Já se comunica. Já tem um temperamento próprio. Diferente do seu irmão, você não para; se agita. É muito curioso ver como cada gestação é de um jeito e cada bebê é singular e único, mesmo antes de nascer. E eu sei que também não serei a mesma mãe para você que fui para ele – nem poderia.

Não consigo deixar de sentir que o nascimento do segundo filho chega com algumas sensações de injustiça. O primeiro, perde a atenção exclusiva que sempre teve; o segundo, nunca a terá. No início da gestação eu morri de culpa – dupla – em relação a ambos. Agora creio que já aceitei essa diferença, que faz parte da vida. Ninguém é igual a ninguém, cada um tem sua vivência. E, se por um lado um teve a mãe só para ele e a outra não, por outro, ela terá uma mãe mais forte, mais madura e decidida, e também um irmão para amá-la desde o iniciozinho da vida.

É impressionante como, para mim, você já está presente, Cecilia. Não está aqui fora ainda, mas já existe em nossa rotina, em nossas expectativas, em nossas conversas no dia-a-dia. Não existe um dia em que Gustavo não te dê um beijo e pergunte de você, te chame pelo nome ou por “nenenzinho”. Não há um dia em que seu pai não mencione seu nome e pense em como tornar a casa mais aconchegante para você. E quanto a mim, não há um dia em que eu não te sinta remexer-se em meu ventre e ria! Não há um dia em que não te dê boa noite e a acaricie por sobre a barriga.

É engraçado como por vezes acho até que já consigo vê-la. Quase posso senti-la em meus braços, se fechar os olhos. Tenho vontade de chorar, imaginando-te em meu colo, em meu seio. Imaginando o som do teu choro, teu cheiro, tua pele, tua temperatura. Imagino longas e lentas horas de imersão contigo em um tempo fora do tempo, sentindo seu corpinho junto ao meu.

Sinto que estamos conectadas. E é tão bom sentir isso, pois confesso que não foi sempre assim, ao longo da gestação. Os primeiros meses foram tensos e repletos de dúvidas, de ambiguidade, de culpa, de medo. Saber-me mudando, deixando de ser mãe de um e tornando-me mãe de dois, aos poucos… Sentindo-me lentamente morrer de um jeito para renascer de outro. Convivendo com as perdas – pois, sim, esse processo também teve perdas… Aceitando aos poucos minhas limitações emocionais, físicas e práticas. Entendendo que precisava adquirir outra velocidade, muito mais lenta, que precisava parar e me isolar um pouco mais do que gostaria. Que teria de abrir mão de muitas coisas, entre elas planos, projetos e outros sonhos, porque o sonho agora era você e você nem era mais sonho, você já é real. Não era mais um desejo futuro, já é aqui e agora. E o resto precisa ficar em segundo plano. Inclusive seu irmão, que até então era o plano principal.

Foi difícil. Demorei para entender e para aceitar tudo isso. Lutei com essas ideias, essas dúvidas e inquietações… Mas enfim entendi e, aos poucos, aceitei. E somente aceitando consegui, finalmente, me apaixonar por você. Não vou mentir e dizer que foi instantâneo esse amor, filha. Eu amava a ideia de você antes de tudo, mas estar grávida de fato – sentir a realidade irremediável – me assustou. Eu olhei para a frente e pude ver toda a minha vida mudando de supetão: o que eu havia idealizado, construído e encaminhado viraria de cabeça para baixo com sua chegada – e logo agora que as coisas pareciam se ajeitar, depois de três anos de confusão…

Mas às vezes acho que a vida não foi feita para estar “ajeitada”. Ou talvez eu tenha me apaixonado, de alguma forma, pelo caos que a vida se tornou; esse caos que traz transformação, que traz crescimento, e por isso eu tenha entrado nessa história como entrei, sem muito pensar, sem que o racional se intrometesse, para não correr o risco de atrapalhar. Você foi gerada num impulso, motivada e concebida em um momento de muito amor… e aceitou o convite sem nos dar muito tempo de nos prepararmos. Mas tudo bem, porque a gente nunca está totalmente preparado pra essas reviravoltas da vida e para os maiores presentes, mesmo.

Faltam agora apenas 10 semanas para sua chegada. Passou rápido. Mas me sinto tranquila, sabe? Mesmo sem termos um berço montado ou roupas organizadas, sem termos decidido como arrumar o quarto de vocês dois, sem criar expectativas demais, que quase sempre se provam infundadas… Nada disso importa. O que me deixa tranquila é termos conseguido conquistar essa conexão, você e eu. O que me deixa tranquila é saber que, antes mesmo de você chegar, já está tão presente entre nós. Já foi recebida e existe na vida da família. É perceber esse amor, que é ao mesmo tempo abstrato e tão real.

Você está quase chegando; eu te pressinto. E eu te amo. Você será recebida de braços abertos, com tanto, tanto amor, que nem pode imaginar. E eu pretendo ser a melhor mãe que puder, com todas as minhas falhas e limitações, a partir de agora não para um, mas para dois seres: Gustavo e Cecilia.

Toma teu tempo. Escolhe tua hora. Estamos te aguardando. Seja bem-vinda quando chegar.

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