não vá embora

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Mãe,

Já não penso em você todos os dias.

É verdade.

Mas tem vezes em que sua falta ressoa tão profunda, tão presente, tão física, que é como se a sentisse em minhas entranhas. Como se faltasse uma parte de mim.

Às vezes me pergunto se esses cinco anos passados foram, na verdade, cinquenta. Eu jamais imaginara que você poderia não estar presente em meus pensamentos em todos e em cada um dos meus dias, assim tão cedo. É um pouco estarrecedor, na verdade.

Mas hoje, não sei bem por quê, a saudade que sinto é tremenda.

Tem um tal “dia das mães” chegando, e eu nunca me importei muito com essa data… No ano passado senti, mas não assim.

Talvez porque hoje eu sinta essa presença dentro de mim, deva sentir também uma ausência. Porque a sensibilidade aflora para todos os lados e não de forma seletiva. Cabendo vida dentro de mim, há de caber também a morte. Tendo presença, há de haver ausência. O anseio pelo futuro desperta a saudade do que já foi.

Outro dia estive no Leme, almocei no La Fiorentina. Lembrei-me o tempo todo de você. Senti os olhos marejados durante todo o almoço. Lembranças e mais lembrancas me invadiram. Só consegui pensar em você, na sua casa, nos nossos passeios, nos nossos almoços, nas taças de vinho, nas risadas, nas alegrias. Lembrei de todos os aniversários que comemorei ali com você por perto. E em todos que virei a comemorar sem você.

Ressignificar esta ausência não é fácil e é trabalho para sempre. Ressignifica-se uma, duas, inúmeras vezes, tantas quanto necessário, tantas quanto meu coração pedir.

Ah, mãe. Como eu me sinto estranha por você não me ver hoje. O tanto que cresci. O tanto que mudei. Tudo que poderíamos conversar sobre assuntos que antes não conversávamos, porque ainda não tinha despertado para eles… Filosofia, política, maternidade, educação. Tanto que poderíamos dividir e discutir a respeito. E brigar, sem dúvida. Brigaríamos muito, com certeza. Mas seria bom dividir isso tudo contigo.

Acho a coisa mais estranha me sentir tão diferente de antes e saber que você não conheceu essa face de mim. Pensar que não conheceu a melhor parte de mim. Não me conheceu mãe, não conheceu seu neto, não conhecerá o “peixinho na barriga”. São tantas lacunas para nunca serem preenchidas.

Eu me vejo diferenciar cada vez mais de você em muitos aspectos e, ao mesmo tempo, estou convencida de que estamos, mais do que nunca, parecidas em tantos outros. Se há algo que você sempre foi, e eu nunca tinha sido, é contestadora e batalhadora. Você sempre batalhou por suas crenças e ideais. Eu nunca fui de confronto. Nunca soube bem o que era lutar por um ideal, até recentemente. Apesar de me distanciar cada vez mais de alguns ensinamentos seus (por convicção), sei que o simples fato de questionar minhas origens e de estar convicta de minhas próprias crenças e correr atrás delas me torna, também, mais parecida com você do que nunca.

Adoraria poder conversar e até discordar sobre isso. Em última instância, mesmo que me doesse, eu gostaria de ouvir o que teria a dizer. Em muitos casos, tenho certeza de que iria me surpreender. Em tantos, você teria muito a contribuir.

Mãe querida, eu ainda não sei me relacionar com esta ausência quando ela me bate assim de frente, como agora. Como um soco no estômago. Ao menos eu aprendi, de alguma forma (não sei bem como), a não senti-la tanto assim, na maior parte do tempo… O que, pra dizer a verdade, não sei se me conforta ou me dói ainda mais.

Sinto falta de tê-la mais presente nos meus dias, ainda que fosse mais fresca na memória.

Amo você. Não vá embora. Mantenha-se aqui, por favor.

Sentir essa saudade doída é ruim e bom. É bom poder me lembrar com tanta saudade.

Um beijo, onde estiver.

Fernanda

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Um comentário sobre “não vá embora

  1. Lindo, lindo, lindo.
    Essa ida da memória é também a ressignificação da dor, em muitos sentidos. A dor vem em outra roupagem, mas também fica mais macia, meio que um sapato antigo e confortável que a gente manda estofar para usar mais um pouco.
    bjs

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