corpo maduro

Eu olho no espelho e vislumbro minha silhueta. Corpo de mulher distante do ideal. Seios mais fartos que o meu normal, mais inchados. Cintura fina e quadril largo. Tão largo e cheio de culote, que é praticamente só que chama meu olhar. Além da barriga. Barriga grande, flácida, caída. De um tamanho que nunca antes. Triste olhar de passeio pelo meu corpo, tão estranho que não reconheço. Tão disforme e tão meu.

A pele maleável e o fraco tônus comprovam que, ali, o tempo passou. Existem marcas, marcas de tempo e cicatrizes – nenhuma tão marcante quanto a do baixo ventre. Neste corpo cresceu uma vida. Nele, produziu-se leite, esvaziou-se, murchou, caiu. Nada ficou no lugar. Há tempo passado, há vida vivida e há certo estranhamento em meu reflexo no espelho.

Mas o que é um corpo ideal? Há muito me afastei da ideia de que existe um modelo de corpo a ser perseguido, aliás, um modelo de qualquer coisa. Vidas não são modelos, são apenas possíveis e reais.

Corpo de mulher vivida. Coisa estranha. Não me via antes com esse olhar de mulher vivida, mas aí estou, acima dos 30, na metade do caminho para os 40. Há tempo, experiência e sabedoria nesta matéria.

Percebi hoje, me olhando no espelho, que envelheci. Não lamentei. Apenas olhei, sem medo e sem vergonha, também sem pudor; me exerguei. Me vi como antes não tinha visto. Novo corpo, novo olhar, novo espírito. Tão diverso do que era antes.

O corpo já foi mais bonito, mas nunca tão pleno, tão cheio de vida. O olhar nunca foi tão forte nem tão sereno. Vai-se a cútis, vêm as rugas. Vai-se a sihueta, fica a sabedoria.

Não me sinto mal na idade madura. Ela me assenta, me cai bem. Antes sentia-me mal na juventude. Juventude esquisita, com ideias estranhas. Com quilos a menos, é verdade: os quilos da experiência. Sou mais completa hoje. Quilos extras e tudo. Flacidez e barriga.

O que começou como um olhar de estranhamento tornou-se de reconhecimento. E, por fim, de aceitação de tudo que tenho, de tudo que sou. Esta sou eu, sem tirar nem pôr. Nua, nunca me vira mais eu. Peitos com ligeiro inchaço, barriga caída, cicatriz no ventre.

Olhando-me assim, senti-me bem. Sem cobranças. Sou eu, essa mesma. Assimzinha, todinha.

Perguntei-me sobre os anos – quilos, celulites e cicatrizes – que ainda vêm.

Perguntei-me se haverá neste corpo novamente vida. Se esta barriga, agora caída, vai se levantar e crescer novamente, em breve. Será por isso que me sinto tão eu, tão preenchida?

Quantas olheiras, quantos aprendizados, quanto amor no coração ainda estão por vir?

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