brincar e transformar

kjl

É doido que, muitas vezes, ter um filho pareça ser apenas mais uma demanda entre tantas da nossa vida, que fica encaixada, espremida, nas curtas horas entre acordar e trabalhar, terminar afazeres e ir dormir. A sociedade encara a maternidade e – putz, que dirá – a paternidade como coisas absolutamente irrelevantes que acontecem ali pela metade da vida, como qualquer outra: nascer, respirar, crescer, reproduzir e morrer. Talvez seja isso mesmo para a maioria das pessoas.

O que me surpreende nisso tudo é perceber como eu sinto este momento de forma totalmente diferente. Porque, para mim, me tornar mãe foi o recomeco. Foi, quiçá, o começo. O início de uma vida que me serve plena, em que sigo meu caminho pelo que faz sentido pra mim, pois busco o meu desejo, o que me encanta, deixando de reproduzir padrões que aprendi e que não me pertenciam.

Eu, que sempre fui cordata. Eu, que sempre fui comportada. Eu, que sempre fui medrosa e tímida. A que não dava trabalho pra ninguém. Que seguia o caminho esperado, fazendo tudo certinho. Não fiz grandes merdas. Fiz algumas burradas por ingenuidade, mas não por descontrolar, por sair dos trilhos ou jogar tudo para o alto. Mas agora eu jogo.

O quê?

Não a minha vida, que nunca teve tanta responsabilidade nem foi tão comprometida. Mas a vida antiga que já não me servia. Que, aliás, nunca me serviu, mas eu vestia na marra, forçando uma barra. Porque achava que tinha que ser assim, era o que se esperava de mim, era o que eu devia.

Daí eu virei mãe e todo o medo soterrado (que vinha enterrado bem fundo, que era para eu nem identificar) veio à tona, à superfície, e fiquei cara a cara com ele.

Estava ali aquele MEDO. Um medo enorme, aterrador mesmo. De deixar qualquer um petrificado.

Não consegui fugir. Tive que olhar bem nos olhos do medo: “o medo do medo do medo de um dia encontrar um lobo”. Mas aí eu o encarei e foi passando “o medo do medo que tinha do lobo. Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo. Então acabou-se o medo” e eu fiquei só com o lobo.

E foi assim mesmo, como narra Chico Buarque em seu Capeuzinho amarelo, que o medo se dissolveu e eu percebi que “o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, não era mais um lobo – era um bo-lo”. Porque quando se olha de frente, quando se enfrenta os medos, eles ficam bobos bobos… Vão perdendo o tamanho, a estatura, vão ficando pequenininhos, até que a gente perde de vista.

Então eu que deixei de me sentir tão pequena. Tão sem voz. Eu deixei de fazer tudo que se esperava de mim, o que eu achava que devia – ou que achava que achavam que eu devia. Fui desapegando dessas besteiras, desses padrões e ganhando coragem.

Coisa mais linda de ter na vida: coragem. Descobri isso aos 33, quem diria. Que, afinal, eu tinha coragem, como nunca pensei que tivesse. Coragem para me olhar de frente e tentar me entender. Coragem para abrir mão da minha autoimagem e de tentar satisfazer as expectativas dos outros (e olha que não é fácil). Coragem para sair do padrão e começar a esmiuçar novos caminhos, novos desejos. E coragem pra brincar.

Na verdade não sei se foi a coragem que me levou ao brincar, ou se a brincadeira tornou a coragem pulsante! Acho que uma coisa levou à outra, que alimentou a primeira, e assim eu fui, nessa retroalimentação, buscando, brincando, escolhendo, encarando, vivendo.

Não tenho vergonha de dizer que a coisa que mais me traz satisfação hoje é brincar com meu filho.

Não, não é o trabalho, apesar de meus pais provavelmente ficarem um pouco envergonhados com isso. Não é o reconhecimento profissional (embora ele até ajude) nem o dinheiro (que, diga-se de passagem, está bem mais curto desde que optei por ter mais tempo disponível). Não é a minha última aquisição no shopping (que eu também nem sei quando foi a última vez que pisei em um).

O que me deixa feliz mesmo é brincar. O que me deixa feliz mesmo é ver meu filho rir. Rolar na grama com o pequeninho, cuidar, acarinhar, fazer tudo por ele.

Dane-se se me acharem medíocre, centrada demais na maternidade. Dane-se se me acharem chata, monotemática ou sem vida própria.

O que é ter vida própria? Minha vida antiga que não era. Creio que estou me apoderando só agora da vida. Decidindo os rumos que eu quiser.

E, nesses rumos, eu quero brincar. Quero estudar educação e sonhar com uma melhor para o meu filho e os dos outros. Mais que sonhar, quero fazer o sonho acontecer. Quero conversar com quem não conheço, quero viajar pra longe, quero ampliar minha empatia e ajudar quem eu puder.

Quero trabalhar com isso? Não sei.

Isso vai me dar dinheiro? Vai saber. (Não vejo como…)

Não estou nem aí. Essas perguntas não me pertencem e já não fazem sentido. Quando me perguntam esse tipo de coisa eu até demoro alguns segundos para assimilar, tentando entender por quê isso é relevante. Eu já ganho dinheiro. Não é muito, mas é suficiente. Por quê não posso me dedicar e me aprofundar em alguma coisa por pura realização pessoal, sem esperar retorno material? É tão estranho assim?

Estranho, pra mim, é quem não se dedica ao que ama. Estranho, pra mim, é quem não brinca. Terão se esquecido do poder do brincar? Não sabem o que estão perdendo? Será que nunca souberam?

Não quero dizer com isso que sou melhor do que qualquer pessoa. Não quero dizer com isso que sou uma mãe melhor ou mais dedicada. Apenas estou entendendo que a maternidade e minha própria realização são duas coisas que estão muito, intimamente ligadas…

Eu quero estar junto do meu filho enquanto ele cresce. Quero continuar entendendo de mim como só entendo quando estou com ele. Quero continuar aprendendo todos os dias sobre os seres humanos, sobre o desenvolvimento infantil, sobre meus choros contidos, sobre minha criança amedrontada. Quero ser eu a educá-lo e não terceirizar sua educação porque “é assim que é”.

Há quem acredite que isso é uma forma de ter controle. Estão enganados. Toda a minha busca em educação é motivada justamente pelo desejo de um estado de aceitação de que não tenho controle de nada. Um estado no qual dou total liberdade e apoio incondicional para que o outro seja como é, sem tirar nem pôr, sem que eu lhe ponha expectativas. Tento zerar essas expectativas dentro de mim a cada momento e me relacionar só com sua potência para se tornar qualquer coisa que queira, no futuro, e para ser exatamente quem é, hoje.

Liberando-o das minhas projeções, eu também me libero para ser exatamente quem sou, sem projeções de qualquer tipo. É um exercício árduo, mas delicioso.

Quero estar presente todos os dias. Quero estar presente no agora. Quero brincar.

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