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Tem dias em que me sinto tão triste, “mas triste de não ter jeito” (como diz Manuel Bandeira em seu poema mais célebre). Nesses dias, tudo me dá vontade de chorar, tudo me emociona. E quero também ir embora para Pasárgada – onde, apesar de não ser amiga do rei, talvez encontre um alento para essa simples dor de viver.

Desde que me tornei mãe – e isso foi antes do meu filho nascer, quando ele ainda estava em minha barriga e eu já me sentia mãe –, a quantidade de lágrimas do meu estoque individual se multiplicou. Desde então não consigo mais assistir a certos filmes, ler sobre certos assuntos, saber de determinadas notícias. Porque é simplesmente doloroso demais.

Law and Order SVU, por exemplo, sei que perdi para sempre. Aquele comercial do Médicos Sem Fronteiras com a música do REM ao fundo é pranto certo. Toy Story 3 é simplesmente impossível de assistir sem chorar. Mesmo as tolices mais tolas, como o filme dos Smurfs, por vezes me comove e faz apertar o nó na garganta e derramar algumas lágrimas, quiçá muitas.

Tem outras coisas mais doloridas. Crianças na rua pedindo esmola. Famílias desabrigadas com seus filhos. Aquela mulher na porta da farmácia, pedindo lata de leite, com bebezinho no colo. A foto do palestino enterrando sua filha morta num bombardeio, dando um último beijo de despedida, cheio de amor e de dor, no rosto dela. (Essa, só de lembrar, me dá um aperto no coração, um soluço contido.)

Tem pequenas coisas da minha vida. Tristezas, saudades, arrependimentos. Às vezes sinto arrependimentos tolos, de coisas tão pequenas, mas que, por isso mesmo, poderiam tão facilmente ter sido evitadas. E sinto-me triste. Porque hoje sei que a vida pode e deve ser melhor, mais generosa. Que eu posso e devo me esforçar para deixar o mundo um pouco melhor.

Uma palavra mal dita, uma grosseria desnecessária. Um esquecimento. Uma crítica que poderia ter deixado passar. Um silêncio que deveria ter feito.

De fato, ser mãe me tornou mais sensível e esforçada. Às vezes fico chocada com minha própria negligência ou insensibilidade, ou com situações em que não dei meu melhor e poderia ter dado. Sempre fui crítica e exigente comigo mesma – agora, então. Meu padrão se elevou, ficou mais difícil. Mas, ao mesmo tempo, sinto mais satisfação. Fico feliz quando consigo estar à altura do meu próprio crivo, e lamento quando me mostro aquém das expectativas. E choro.

Choro mesmo. Se antes tinha dificuldade de libertar o choro, agora ele sai sem que eu queira, sem que entenda por quê. Choro tantas vezes, penso mesmo que para ser capaz de suportar tanta beleza e tanta tristeza que a vida traz em si.

Por sentir-me sozinha e não entender isso. Por querer um mundo melhor e às vezes não ver como. Por arrependimento pelo que disse e não devia ter dito. Por uma distância sentida com alguém que queria perto. Por não entender certos rumos da vida. Pelo sofrimento do outro. Porque meu filho se machucou. Porque a vida não é o que gostaria e há tanto sofrimento ao redor. Porque tanta gente simplesmente não liga. Porque eu mesma não faço o quanto gostaria. Porque a vida passa e eu continuo a perseguir algo de que me sinto distanciar, às vezes. Porque ele está crescendo e eu quero tanto que seja feliz, que chega a doer. Porque quero outro filho. Porque tenho medo. Porque tem coisas que não quero que mudem nunca, mas sei que mudarão, mais cedo do que tarde. Por sentir tanto amor que não cabe no peito.

Sometimes there’s so much beauty in the world, I feel like I can’t take it, and my heart is just going to cave in.”
(Beleza Americana, 1999.)

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4 comentários sobre “because

  1. … E tb porque as flores murcham, e tb porque nunca disse adeus. Às vezes me pergunto porquê entrei nessa aventura sem antes resolver pendências tão mínimas, e assuntos mais sérios…
    Obrigada por suas palavras, me desataram um nó no peito…

  2. me vi em quase todas as linhas deste texto, e o mais dificil para mim é não saber lidar com essa tristeza, e não saber resolver esses “problemas” q agora são tão sensiveis para mim.

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