telas, tédio, paciência, concentração (e a relação entre tudo isso)

Galinha Pintadinha

Li uma ótima análise sobre o lado negro da Galinha Pintadinha no Viciados em colo.

Acrescento um fator à lista de “Por que não colocar a penosa ou qualquer tela para entreter (distrair/hipnotizar/sedar) as crianças”: elas precisam aprender a ter paciência. Precisam aprender a lidar com o tempo, com o fato de que algumas coisas são chatas sim, e que levam minutos, quiçá horas para se desenrolar. Acostumar-se ao fato de que nem tudo é entretenimento e que assim é a vida. Não significa dizer “não” apenas por dizer. Mas em casos nos quais o “não” é indispensável, em casos em que nós mesmos não temos outra opção a não ser ter paciência, é importante ensiná-los a ter também.

Ser capaz de aturar uma viagem de carro sem fazer uso de hipnotizadores, por exemplo. Comer consciente de que se está comendo e se relacionar com a comida, seja brincando com ela, bagunçando ou se sujando todo (e aqui abro parênteses para ressaltar minha firme crença de que se sujar na infância é saudável). Aprender a se relacionar com uma mãe (ou cuidador) que lava, cozinha, toma banho e vai ao banheiro enquanto cuida dele. Saber respeitar esses momentos e ser capaz de suportá-los são aprendizados importantes para as crianças, na infância e ao longo da vida. Como podemos ensinar a elas?

Acredito que mudando nossa própria maneira de nos relacionarmos com esses momentos. Criando relação e conexão em vez de distração e enganação. Conversando, explicando e, principalmente, sendo exemplo de que nem sempre a vida é uma festa… E que isso faz parte. Ou seja, aprendendo, também nós, a nos relacionarmos com eles, sendo capazes de tolerar o seu protesto, sua birra, sua reclamação, quando ela acontece. Ter tolerância com o fato de que tudo que fazemos com crianças ao lado leva mais tempo, mesmo. De que nem tudo está sob nosso controle. Tendo compreensão que criança não é robô e não dá para exigir que fiquem duas horas sentados sem emitir algum som e sem sair do carrinho porque nós precisamos fazer supermercado.

Exigir que crianças fiquem paradas tranquilamente e estáticas por tanto tempo é simplesmente ir contra a natureza delas. É quase como pedir à criança para deixar de existir durante aquele momento. Porque criança quer se movimentar, quer ver, quer mexer, quer saciar sua curiosidade. É assim que se dá seu aprendizado. Claro que dá mais trabalho tirar o filho do carrinho e lidar com o fato de ele correr o mercado todo, mexer em tudo, jogar os produtos no chão e não obedecer aos nossos suplícios de que fique quietinho, que nos ajude (ou ao menos que não atrapalhe)… E que nos permita resolver aquela obrigação do dia, que, afinal, nós mesmos estamos achando chata.

Mas será que isso acontecerá sempre? Será que a correria e a bagunça se darão sempre que formos ao mercado juntos? Na minha experiência, não. Porque a correria e a necessidade de tocar em tudo vem principalmente da curiosidade inata da criança, que ainda não conhece aquele espaço o suficiente para se sentir familiarizada e transitar com calma por ele. São muitos estímulos, coisinhas que eles nunca viram enfileiradas em inúmeras prateleiras: um prato cheio para a bagunça. Mas, a partir de quando passamos a levá-los frequentemente às compras e permitimos que se envolvam e participem daquele momento, a coisa começa a transcorrer com muito mais naturalidade. O que fiz com meu filho, por exemplo, foi dar-lhe tarefas para me ajudar. Coisas para carregar, por exemplo. No início ele se dispersava, não conseguia ficar muito tempo com as coisas na mão, acabava por deixar que caíssem ou as deixava de lado para pegar outras. Eu me mantive firme, aceitava seus deslizes como parte do processo e continuava incentivando que ele ajudasse, participasse. Permitia que mexesse nos objetos por um curto período, para ter a curiosidade saciada. (Qual será o peso disso? E daquilo?) Sem dúvida, demorava muito mais tempo. Mas foi melhorando aos poucos. Depois de um tempo aquele local já não representava tanta novidade, ele já sabia que se tratava de um mercado e entendia porque estávamos ali. Passou a fazer suas tarefas com zelo, maior capacidade de concentração e com muito orgulho de estar ajudando a mamãe. Hoje, ele é ótima companhia para fazer compras. Ainda faz bagunça e corre pelos corredores, vez ou outra. Mas tem se tornado cada vez mais focado, à medida que sua capacidade de compreensão se amplia. E ainda é educativo, pois ali ele aprende in loco sobre de onde vem seu alimento, sobre relações comerciais e sobre como as pessoas se relacionam em um local público, entre inúmeras outras coisas. Tem cerca de um ano que começamos nossas vivências “mercadológicas” (quando me convenci de que não dava para mantê-lo parado no carrinho, tampouco podia deixá-lo em casa, e decidi incluí-lo na tarefa).

Na cozinha, aconteceu o mesmo. Era a maior dificuldade preparar a comida e mantê-lo quieto. O erro era meu: criança não foi feita pra ficar quieta. Elas querem entender o que estamos fazendo, querem repetir o que estão vendo, pois assim aprendem, por repetição. O que é importante para nós e o que toma nosso tempo – pois somos sua maior referência no mundo – são seus principais objetos de estudo. Eles querem ser como nós e entender o nosso mundo, inserir-se nele. Quando mudei a premissa de que ele precisava ficar parado para eu poder cozinhar (e até então eu fazia uso da TV para conseguir isso), tudo ficou mais fácil. Um dia ele entrou na cozinha com demandas constantes de atenção (o que não significa uma criança mimada, mas sim que ele se relaciona com o mundo por meio de seu objeto de afeto) e entreguei-lhe uma panela e uma colher de pau nas mãos. Coloquei um banquinho à sua frente e disse: “Esse é o seu fogão. Você vai fazer seu papá aí, e a mamãe vai fazer aqui no fogão dela.” Foi uma alegria! Há muito ele cobiçava aqueles materiais de metal que eu tanto manuseava e aos quais não tinha acesso. Por quê não tinha acesso? Porque eu achava que panela “não é coisa de criança”. Novamente foi uma mudança de premissa. Perguntei-me por que não deixar que ele mexesse nas panelas. Elas não representavam perigo para ele, não quebravam, nem mesmo eram caras ou novas. Qual o problema em permitir que mexesse nelas?

Hoje ele está maior, e algumas vezes, enquanto cozinho, ele fica no seu quarto brincando. Quando vem à cozinha, sei que quer participar, mas agora ele tem livre acesso a todos os utensílios que não cortam ou quebram (e ficam na prateleira baixa do armário, ao seu alcance). Recentemente ele descobriu o espremedor de batatas e está profundamente apaixonado por ele. Juro que ele é capaz de passar meia hora apenas com o espremedor, investigando seu funcionamento. Percebo como observa fixamente e o imagino tentando decifrar as dobradiças. Sinto um baita orgulho da sua cabecinha pensante. Às vezes, ainda, dou-lhe tarefas mais complicadas, como ajudar na confecção dos pratos. É uma farra. Claro que demora mais. Claro que me dá mais trabalho. Mas é também muito gratificante. Já o ensinei a quebrar ovo – o que ele adora fazer e, sim, é uma lambança –, a mexer a massa do bolo, a cortar tomate (comigo ajudando sua mão que segura a faca) e colocar na salada, a mexer no liquidificador (sucos, sopas), a fazer suco de laranja, a fazer café. Ele fica muito focado nesses momentos e dá o melhor de si. Percebo o cuidado que emprega quando dou a xícara de farinha em suas mãos para derramar na massa do bolo. Sim, uma parte cai fora da tigela. E daí? Entre tantas coisas, ele aprende a função da cozinha, aprende sobre os ingredientes, aprende inclusive a colaborar com a mãe, e sente orgulho disso, tanta satisfação em ser prestativo… É lindo de ver.

Além da importância de inserir as crianças no nosso mundo (ora, no mundo deles), cito ainda a importância da presença do tédio em suas vidas. Sim, é muito chato sentir-se entediado. Nós também achamos, e rapidamente usamos nossos próprios entorpecentes: bebida, comida, drogas, consumo, a própria televisão. Eu perco a conta de quanto tempo perdi à frente dela, viciada em seriados bobinhos que não me acrescentaram muito ou qualquer coisa. Sou potencialmente muito viciável nesses mídias fáceis (eu e meio mundo), e sei que preciso me controlar. O problema é que criança não se controla. Eles ainda estão aprendendo o autocontrole. Então quem controla somos nós, pais. Nós devemos ter controle por eles, no sentido de evitar o que eles não têm como evitar e muitas vezes nem mesmo sabem como evitar. Por isso eu restrinjo o acesso do meu filho aos eletrônicos. Por isso me forcei a restringir o meu próprio, aliás – tanto que há muito não assisto programas de televisão, salvo um filme ou outro, e nunca me permiti comprar um celular “esperto” (porque tenho medo do meu lado adicto do mundo virtual e do efeito que o zapzap poderia ter sobre mim).

A verdade é que TV e outras mídias vêm como um consumo muito fácil, mastigado. Propositalmente projetado para nos afastar tanto quanto possível do tédio (e não vou nem entrar no mérito da publicidade e do consumismo, aqui). Não há necessidade de pensar quando se assiste a um desenho animado como a GP. Não há necessidade de pensar quando se assiste a The Big Bang Theory ou a um dos (muitos) Duro de matar (sim, eu sou dessa época – e olha que depois deles a coisa piorou muito). Você se senta ou deita ali e recebe passivamente as imagens, os roteiros mastigados e muitas vezes incoerentes – quanto mais músicas esganiçadas, imagens piscantes, explosões e acidentes de carro, melhor. Puro entretenimento. Os filmes antigos nos causam cansaço, tédio. São lentos, poucos barulhentos e geralmente reflexivos. Um saco. (Atenção: ironia mode on.)

Faz algum tempo que estudei o processo criativo em um curso interessante do Parque Lage, mas ainda me lembro bem da conclusão a que chegamos, após muitos debates, que na era de hoje perdemos muito da nossa capacidade de contemplação. Queremos agilidade. Contemplar é chato, parado, cansativo. Quantas vezes vamos a museus e dispensamos menos de 1 minuto para analisar cada obra? Ou trabalhamos ao computador com inúmeros programas e diferentes abas do navegador abertos, que alternamos a olhar enquanto o computador carrega algum arquivo? Conheço crianças que almoçam jogando videogame e lendo revistinha (chego a me perguntar como isso é possível). Então me pego a pensar na atual enxurrada de diagnóticos de TDAH, e já não me surpreende. Que boa parte seja equivocada, e que essas crianas “hiperativas” na verdade estejam apenas tentando ser crianças. Ainda assim, existem casos que chegam a extremos. Mas será que a “doença” está mesmo na pessoa, na criança, ou estará instalada de forma muito mais abrangetne em nossa sociedade? Essa mania multitarefa, essa necessidade de consumir o que já vem mastigado (sejam programas de TV, artigos curtos, comentários de não mais de 360 caracteres etc.) são efeitos da sociedade pós-moderna que criamos. Existe excesso em tudo, em estímulos, produtos (Francisco bosco também fala disso aqui)… e uma generalizada incapacidade de lidar com a falta deles, com o tédio, com uma estranha sensação de vazio. Não há capacidade para suportar o tédio, ou mesmo o profundo. E precisamos continuar a ser constantemente estimulados para mantermos o interesse. Por isso também temos dificuldade de nos prender a algo, de nos comprometermos com o que for – mesmo com o que nos é agradável, que dirá o que não é agradável (compras, arrumação da casa, uma viagem longa etc.)?

Por isso não uso DVD no carro, com meu filho. Não critico quem usa, eu sei que pode ser perrengue, especialmente se estivermos sozinhas ou se a criança for impaciente (que algumas são mais do que outras, assim como nós). No meu caso, optei por não usar e não me arrependi. Enfrentei inúmeros ataques na cadeirinha do banco de trás. Cantei, até dizer chega, músicas para ele. Inventei refrões que não existiam para conseguir entretê-lo por mais tempo. Mostrei o mar, o céu, a lua, a árvore, os carros, os ônibus… Tudo que me ocorreu na hora. Mas, afinal, obtive minha recompensa: hoje ele tolera bem o tempo no carro. Para percursos curtos, nem cogito mais o uso de imagens. Ele vai se entretendo sozinho a olhar pela janela. De tempos em tempos chama minha atenção para alguma coisa ou dá uma reclamada. Eu explico para onde vamos, que demora mesmo, que não pode sair da cadeirinha… ele chia um pouco, mas se conforma. Para viagens, que são mais longas, eu ainda levo o aparelho, mas raramente uso – vai para emergências, eu torcendo para não precisar. Se preciso, faço mais paradas, coloco música, converso muito… e, verdade, tenho uma sorte do caramba que meu filho tem o dormidouro aberto no carro, que o balancinho o deixa sonolento e nos ajuda ao menos em parte da viagem. No entanto, na maioria das vezes, mesmo acordado, ele se mostra paciente, e vejo isso crescer a cada dia, mesmo em outras situações que para uma criança pequena poderiam ser chatas. A verdade é que eu nunca quis me tornar dependente desse recurso, pois na minha compreensão, se ele entender que é normal te-lo, vai exigi-lo sempre, e eu nunca quis que se tornasse uma condição para uma viagem tranquila. (Devemos tomar cuidado com os recursos que usamos, porque muitas vezes eles podem sair pela culatra e se voltar contra nós.)

Além da necessidade de desenvolver a paciência e a capacidade de focar e contemplar, e da importância de se inserirem no mundo real, em vez do virtual, há ainda mais um motivo pelo qual o uso excessivo de aplicativos e telas me incomoda muito. Está claro que a TV nos tira do tédio. Que ela nos torna passivos. (Existem exceções, mas estou falando no geral.) O que há de tão hipnotizante em alguns desenhos que são capazes de deixar crianças sentadas quase sem piscar durante horas (indo, dessa forma, totalmente contra a própria natureza delas)? Bem, elas trazem imagens coloridas, músicas repetitivas e, basicamente, roteiros simples, fáceis e prontos. Não existe interação (mesmo nos desenhos que tentam ser interativos – o que chega a ser uma tentativa quase patética). Ela apenas se senta e recebe o conteúdo. São tantos estímulos, que não há espaço para fazer muita coisa, apenas se tornar espectador. Os estímulos agitam o neocórtex, mas o corpo pouco se move.é uma experiência inteiramente virtual. Será que o sistema nervoso dos pequenos está preparado para tanto? Há muitos estudos que dizem que não, e que pelo menos até os dois anos crianças não deveriam ter nenhum acesso a qualquer tipo de tela, pelo fato de as mesmas sobrecarregarem seus sentidos. Mas mesmo depois dos dois anos existem efeitos colaterais. Assim como brinquedos que brincam sozinhos, diante de uma tela não há espaço para interagir ou investigar (como meu filho faz com “seu” espremedor de batatas). Não há espaço para inventar.

Ah, sim, inventar se torna praticamente impossível! Sabe aquele momento em que a criança investiga e faz uma descoberta sozinha, sem ninguém ter dito nada a ela? Ou quando ela está entediada e reclama, os pais falam para inventar alguma coisa, e ela vai para o quarto e de repente começa a inventar que o lençol é uma cabana, que a rede é um barco, que embaixo da cama é uma caverna? Ou ainda quando ela senta com seu lápis e papel e começa a desenhar sequencialmente, contando uma história para si mesma, em voz alta, e complementa-a com as imagens? É nesses momentos que ela se torna criadora, agente com influência direta no mundo que a rodeia. É quando ela inventa que as almofadas são pedras e que o quarto é um rio que ela precisa atravessar por sobre as pedras, e, em sua imaginação ela verá essas imagens como se fossem reais – ela transforma o mundo e se insere nele. Mas isso não é possível quando não há um pouco de tédio, quando tudo se apresenta pronto para nós: brinquedos, brincadeiras, imagens e histórias. Quando está tudo pronto, não há o que inventar, não há o que criar. Ela deixa de ser agente e se torna passiva.

Quem ler tudo que escrevi agora, acreditará que eu demonizo a televisão. Não é verdade. Eu apenas não lhe confiro o valor que a maioria pessoas conferem. No entanto, eu me lembro de quando, criança, descobri tantas histórias bonitas por meio de filmes e de desenhos animados. Muitos personagens me cativaram, muitos também me ajudaram a construir a forma como via o mundo e renderam muitas brincadeiras. Só que isso foi mais tarde. Não foi com seis meses, como acontece hoje em dia. Nem teve a função que hoje esses aplicativos têm, de manter a criança quietinha. Eu fui uma criança inquieta e muito feliz. Tinha grandes quantidades de tédio nas minhas tardes, e nem sempre ficava feliz com isso, mas muto do que sou, elaborei nesses momentos, criei, brinquei, desenhei, criei um mundo imaginário (o que não quer dizer que não seja real, parafraseando Clara Melo) e extremamente rico de personagens, de brincadeiras e de sonhos. As imagens digitais nunca substituíram o fundamental: a experiência real. A criança aprende, primeiramente, no mundo. Não sobre o mundo, pensando nele com metáforas, mas no mundo, vivenciando-o.

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