encontro consigo mesma

tubarao

É um tanto esquisita a sensação de olhar para trás, para quem eu fui, e ter esse estranhamento. Eu nunca tinha entendido aquele sentimento de inadequação que me acometia tanto, a dificuldade que eu tinha pra ser simplesmente eu mesma. Eu pensava que essa dificuldade significava que eu era uma pessoa complicada, difícil de ser. Jamais tinha imaginado que, na verdade, era difícil porque eu não estava de fato sendo eu. Que a inadequação se devia ao fato de eu ter me adequado, me moldado ao que outros esperavam de mim – ou o que eu achava que eles esperavam. Muito difícil viver como se estivesse o tempo todo vestindo um jeans apertado. Como se eu mesma fosse uma roupa justa demais, que não me cabia. Era incômodo. Era difícil. Sentia-me sempre deslocada, inadequada, aquém das expectativas, tola, frívola, estúpida.

Que alívio sinto em meu peito, hoje! Parece que toneladas me foram tiradas do ombro. Que alegria é se tornar quem verdadeiramente se é – se permitir ser quem é.

É um alívio hoje, mas a verdade é que foi muito difícil chegar aqui. Pra começar, foi difícil tirar o lixo de tudo que colocaram – ou que eu coloquei – na minha cabeça. Que eu devia ser boazinha, educada, comportada. Que eu era avoada, alienada, tola, irresponsável. Que não era culta o suficiente. Que não seria capaz. Que vivia sempre no mundo da lua. Que não passaria no vestibular. Que não conseguiria me sustentar seguindo a carreira que queria. Que desenhar não tinha importância, que não era coisa séria. Que eu não podia dizer o que pensava. Que, acaso dissesse uma besteira, se errasse, esse erro levaria a um fracasso definitivo, que mudaria a opinião dos outros sobre mim irremediavelmente – que estaria tudo perdido!…

Quanto medo. Alguns anos atrás – poucos! –, eu ainda olhava para mim e via muito medo. Um dia, fazendo o exercício de me observar, imaginei olhar para dentro e mergulhar em águas profundas… e ser espreitada por um imenso tubarão, em águas escuras e turvas!…

Um tubarão. Em águas escuras. Espreitando, à espera para me devorar. Nossa!!!

Nem sei precisar como expulsei esse tubarão de dentro de mim. Só sei que, um dia, sem aviso, ele se foi – e levou consigo as abelhas que moravam em meu estômago.

Alívio! E, com esse alívio, uma tremenda sensação de liberdade. E, junto da liberdade, poder – potência! Desde que passei a me sentir livre para ser e fazer o que quiser, tenho esse sentimento de capacidade, de poder almejar, buscar e conquistar. De ser capaz de construir coisas. De ser capaz de cuidar de mim e de outras pessoas também. De ser autônoma. Eu, que sempre me havia sentido tão dependente… Só que não mais.

Lembra quando nos faziam crer que podíamos tudo? Lembra daquelas frases bonitas estampadas nas camisas, nos parachoques: “quem acredita, faz”, “quem persegue, alcança”? Besteira. Nunca tiveram intenção que acreditássemos realmente nisso. São frases de impacto escritas por algum marqueteiro, que estampa no noticiário – ou numa propaganda – que “sou brasileiro e não desisto nunca”. Mas isso é só pra sentir uma migalha de esperança, se emocionar, chorar, achar bonito, sentir orgulho por um momento… Quando, na verdade, a mensagem que nos querem passar, que nos ensinam todos os dias, é que não podemos. Não conseguimos. Não somos capazes. Que devemos ficar quietinhos, sem questionar, sem inventar nada. Afinal, quem somos nós para criticar o que já existe e é há muito aceito? Pra questionar o que está estabelecido?

Desde crianças nos fazem crer nisso, que não somos capazes. Deixa isso pra lá, menino, você é muito pequeno, você não consegue. Você não sabe. Você quer ser músico? Músico não ganha dinheiro. Quer ser palhaço de circo? Que palhaçada, estou falando sério, me diz agora o que vc quer ser quando crescer! (Não importa que tenha apenas 6 anos)… Ao que a criança, acanhada, tolhida, amedrontada, balbucia “me-me-médico…” – Ah, sim! Agora sim, muito bem.

Eu vi aquele filme O discurso do rei e gostei muito. Tem uma cena em que o (futuro) rei George tenta dizer umas verdades para o irmão, mas começa a gaguejar, e é ridicularizado por ele. Quanto mais o irmão escarneia, mais ele gagueja; quanto mais gagueja, mais o outro tripudia… e ele nada consegue dizer. As palavras ficam esgasgadas na garganta… Não sei por que me identifiquei tanto. Hm.

Hoje isso mudou. Ainda engasgo com as palavras – especialmente as delicadas, sobre coisas que nos importam mesmo… Ainda opto, muitas vezes, por calar. Mas já não sofro tanto. Ainda que as palavras não saiam, elas não estão entaladas. Estão bem alojadas em mim, pois agora tenho segurança nelas. Agora eu sei o que quero, sei quem sou (ou ao menos estou descobrindo, a cada dia) e é mais fácil para mim ficar em paz mesmo sabendo que frustro as expectativas de outras pessoas. Minha prioridade não é mais atendê-las.

Foi e é um longo e constante trabalho de autoconhecimento e de aceitação. Não basta descobrir quem se é, é preciso aceitar-se. Procuro ter paciência comigo, compreensão quanto a meus defeitos e falhas… Pois com essa compreensão adquiri também a confiança na minha própria potência, na minha força. Encontrei, em algum lugar desse grande mar, algo que não sabia que existia: coragem. Com essa coragem foi que olhei pra dentro e afugentei o tubarão. Foi com ela que encarei meus grandes medos, minhas grandes falhas, e redescobri a força, os talentos, a alegria de criança… meu desejo de mudar o mundo, e não de adaptar-me a ele.

De fato, quase não me reconheço ao olhar pra trás. Não preciso olhar muito longe: dois anos são suficientes. Uma mulher que era outra pessoa. Ou era a mesma, só que estava encolhida, moldada. Tentando vestir-se com roupas de outros, que não vestiam seu tamanho. Não dá pra adotar valores e opiniões que não são seus. Não sem questionar. Não sem que eles nos falem a fundo. Se não tem energia vibrando, se não tem olhos brilhando, é porque está errado – o que há é submissão, adaptação. Cansei de me adaptar. E agora que me permiti pensar fora da caixa, sei que jamais poderia voltar.

Que processo árduo, doloroso e apaixonante. Respiro fundo e percebo o quanto sou livre. Tive um filho, e não sinto peso algum – sinto-me tão livre, que parece que posso voar.

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