motivação intrínseca!

A cada dia vejo menos sentido nessa sociedade que organizamos ao longo da história. Quanto mais me questiono sobre minhas reais necessidades, meus reais anseios e desejos na vida, mais percebo que a forma como nossa vida está estruturada simplesmente não faz sentido para mim.

Esbarrei hoje com uma carta de Dorival Caymmi para Jorge Amado que me encantou absolutamente por sua enorme simplicidade e sabedoria. Ressalto o seguinte trecho:

O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro.

Sinto-me assim o tempo todo. Cuidar do meu filho, escrever sobre o que me comove, desenhar tudo que vejo, namorar meu marido, ouvir música, ler tudo que há pra ler, praticar yoga, caminhar, olhar o céu, o mar, as pessoas, cozinhar, cuidar da casa… São tantas coisas que me tomariam o tempo inteiro… tempo que não tenho, pois tenho que trabalhar. Tenho que produzir.

Produzir o quê? Não sei exatamente o que produzo com o meu trabalho. Se produzo arte (adoraria, mas mais parece que produzo marketing), se produzo cultura, se produzo produtos perecíveis que depois terão de ser reciclados… Na maior parte do tempo, sinto que produzo lucro – para alguém que não conheço e não sei quem é…

O mundo nos impôs tantas obrigações e necessidades que não temos mais tempo para essa vida prosaica. E, quando existe tempo livre, acabamos por nos ocupar de uma não vida impressionante, uma tapeação sem fim (burocracias, consumismos, jogos, tv, facebook!)… Ao fim do dia, depois de passar horas de lá para cá, horas no trabalho, horas na internet, horas com obrigações e pendências burocráticas… quanto tempo nos resta para, de fato, viver?

Tenho sentido falta de vida. Vida mesmo, sabe? Aquela que é vivida nas horas vagas, entre uma tarefa e outra.

Hoje saí para passear com meu marido e meu filho. Meu marido empurrava o triciclo do pequeno e íamos conversando, num passeio despretencioso pelas ruas do bairro ao entardecer. O por do sol estava bonito, as ruas arborizadas e pouco movimentadas, cheias de crianças andando de bicicleta pelas calçadas. Meu filho ia falando sem parar, um balbucio de bebê entremeado por palavras já inteligíveis repetidas vezes. Passou um cachorro. Meu filho gritou para ele, que se aproximou e veio cheirar seus dedos dos pés. O garoto riu, se encolhendo, num misto de satisfação e de nervoso. Ao nos afastarmos, gritou para o cachorro: “táu!”…

Momentos assim, sem outra finalidade que não vivê-los. Isto é vida. É o que acontece entre uma conta e outra, no intervalo entre o trabalho e o sono. É o que faz a caminhada valer a pena, recuperar o sentido.

Passei recentemente alguns dias no sítio, só vivendo. Cozinhei, limpei a casa, passeei com o filhote. Tomamos banho de rio. Conversamos. Colhi verduras na horta… Tive um lampejo de compreensão de que isso, isso é o que se chamava de vida, antigamente. O trabalho era feito conforme a necessidade: consertar um telhado, costurar uma roupa… Éramos mais autônomos. Hoje pagamos para que façam essas coisas para nós – inclusive educar os filhos… E somos pagos para fazer outras coisas para os outros. Terceirizamos tudo.

A cada dia acredito menos nesse trabalho mecânico. O trabalho obrigatório, compulsório, motivado pelo ganhar-dinheiro-para-pagar-contas e com finalidade de atender a interesses de outros. Não me entenda mal, reconheço o valor edificante do trabalho. Produzir para o mundo e para si, elaborar, construir, contribuir! De tudo isso sou a favor. Mas há um tipo de trabalho que não se encaixa, que não constrói e não evolui: é o bater ponto sem amor nem motivação, para gerar o lucro de poucos…

Acredito no trabalho quando ele vem de dentro. Quando a força motriz é nosso entusiasmo, nosso amor pelo que se faz. Qualquer que seja o trabalho, quando ele não é o objetivo em si mesmo, transforma-se em meio, e, como tal, perde o significado. Trabalha-se para pagar as contas, pra poder viajar. Pra pagar o médico e os remédios quando ficarmos velhinhos… Enfim, para ter dinheiro, que nos permite fazer as outras coisas. Mas quantas pessoas trabalham para preencher o coração? Para efetivamente produzir algo que se acredita fazer a diferença?

É sobre o que tenho questionado. É com o que tenho sonhado… Estou cansada de trabalhar para pagar contas. Cansada de prestar serviço para alimentar um mercado que visa ao lucro. Produzir, produzir até cansar, até esgotar os recursos, para induzir outros a comprarem coisas de que não precisam, para que um ou outro acumule capital…

Quero trabalhar, sim. Mas trabalhar com o que me traz sentido. Quero escrever sobre o que me comove, sem pressa e sem compromisso de ter algum retorno financeiro. Quero levar meu caderninho pela rua e desenhar pessoas que passam, paisagens que vejo. Quero ajudar a educar crianças, ajudar outras mães em dificuldades no puerpério… Quero produzir o que amo. Mesmo sem ser remunerada por isso.

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