prece pelo descanso

Acordo ao lado do meu filho, em seu quarto. Ainda é madrugada e breu, mas sinto que ele se mexe e isso me tira do sono profundo – um sono justo e precisado. Abraço seu corpo quentinho e mentalizo “dormedormedormedorme”, mas que nada, ele se remexe ainda mais e atira seu corpo sobre minha cabeça, deixando-se largar, numa clara tentativa de me sufocar e/ou mergulhar de cabeça no tapete do quarto, mais adiante. Previno a primeira prossibilidade me desvencilhando de suas pernas ao mesmo tempo que evito a segunda, segurando-as firmemente para que não caia. Em meu arrastar pra fora de sua armadilha, deixo para trás e dou adeus ao travesseiro quente e macio, com saudade. Fazer o quê, é a vida.

Meu filho percebe minha fuga e imediatamente se senta sobre o travesseiro. Choraminga, em protesto, ao que eu, sonâmbula, balbucio “amor, quer dormir, né?”. Ele responde com um choro mais alto “uahhh” numa negativa óbvia e veemente de quem quer tudo menos isso.

“Tá bom, tá bom”, e eu que vinha tentando na última semana um “desmamadeiramento” noturno sem qualquer sucesso, decido que não banco outra semana em claro e que é melhor levantar logo pra fazer a porra do leite e voltar a dormir o quanto antes. Ao menos até tomar coragem para nova tentativa.

Levanto-me e ele me acompanha até a cozinha. Preparo a mamadeira com pressa. (Quem foi que disse que mamadeira é mais prático que peito? Tivesse desmamado por conta disso, exigia indenização por propaganda enganosa do desgraçado…) Enquanto faço o leite, Guga exclama “caiu!…” e ri sozinho, sabe-se lá no que pensava… Em seguida choraminga, me mandando ir mais depressa.

“Já vai”, digo, sacudindo a mamadeira e me precipitando em direção à porta para o corredor, ao que ouço outra vez “uahhh” e vejo que ele aponta para a luz acesa.

“Depois eu apago.”

Insistiu “uahhh…”

“Tá bom, tá bom.” Melhor apagar uma luz que ficar aturando manha às 2h da manhã – porque impor limite nesse horário, tenha dó! Apago a luz, caminho tateando pelo corredor até o quarto. Ele senta no meu colo e bebe gutgut. Mamadeira vazia, vira pro lado e dorme. Como um anjo.

Meu anjo. Mesmo na profundeza da noite e dos sonos mais pesados, não consigo evitar sentir essa onda de amor revigorante ao olhar pra ele, deitado num sono gostoso.

Levo a mamadeira pra cozinha, troco fralda, apago luz. A caminho do quarto, paro rapidamente no escritório: escrevo estas palavras, que me vinham à cabeça enquanto tudo acontecia e que certamente se perderiam caso deixasse para amanhã.

Maravilhas da maternidade: sono interrompido, lampejos de amor profundo, insônia e inspiração no meio da madrugada.

Ser mãe é acordar de noite, não dormir mais que quatro horas seguidas, mesmo com um bebê quase criança amamentado na mamadeira que até dorme bem, mas que mama à noite como um esfomeado. Acordar, cuidar, virar pro lado e desejar que as próximas horas de sono sejam ao menos restauradoras, já que não serão longas.

Desejo, em prece: que ele durma bem e que eu acorde às 6h da matina revigorada como nunca acontece, obrigada meu pai, amém.

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