desacelerar

Aterro do Flamengo - por do sol

Tenho muita dificuldade em respeitar meu tempo. Um dos motivos de ter decidido mudar meu modo de trabalho – do escritório para casa, de uma rotina cheia de projetos desinteressantes para outra com alguns poucos que me motivam – foi justamente a necessidade de reencontrar meu próprio ritmo.

Todos os dias eu acordava sem querer acordar, pressionada para um novo dia no qual eu sabia que não conseguiria fazer o que queria fazer, e que já começava devendo. Sempre correndo de um lado para o outro, encaixando almoços entre dois compromissos, muitas vezes em locais que não me davam prazer de comer nem ofereciam comida saudável, falando ao celular enquanto caminhava pela rua, a fim de poupar tempo… Economizava o tempo de tudo, até de respirar ou de ir ao banheiro, muitas vezes.

Nas últimas semanas minha rotina mudou, não tenho mais tantos compromissos e até me permiti em alguns momentos ficar “de bobeira”. Mas o ritmo acelerado ainda está dentro de mim. Percebo isso no modo como respiro e às vezes prendo o ar para digitar mais rápido. No modo como me angustio ao perceber que o dia passou e ainda não consegui resolver as pendências da lista de afazeres. No modo de colocar o copo no filtro e simultanemente ir abrindo a geladeira para pegar logo um chocolate, sem poder esperar o copo ficar cheio para só então abrir a geladeira. (Essa mania de fazer duas coisas ao mesmo tempo me estressa e acaba por não me permitir focar em nenhuma; as duas ficam feitas pela metade.)

Faz parte do meu novo projeto de tempo/trabalho/vida adquirir novamente a capacidade de desacelerar. Mais urgentemente, a capacidade de focar verdadeiramente naquilo que estou fazendo. Quando trabalho diretamente no computador, torna-se ainda mais difícil. É quase impossível resistir a abrir outra janela no navegador pra dar uma olhadinha no facebook ou no link de um blog que queira ler, enquanto outra janela está carregando… Já estou viciada. É como as pessoas viciadas em adrenalina. A capacidade de parar, de focar, de contemplar é coisa esquecida, mas sinto a necessidade de resgatá-la.

Aliás, estou aqui escrevendo e fazendo um esforço palpável para não abrir outras janelas. Para não escutar, simultaneamente, o podcast da aula online que estou fazendo. Para não dar uma espiadinha no celular e ver a mensagem que apitou. (Mas não consegui me conter a devorar os dois quadradinhos de chocolate que peguei na geladeira.)

Pausa pra respirar.

Quero me dar o direito de ficar inteiramente absorta, contemplando. Seja meu filho brincando ao meu lado ou o dia que vai passando. Seja o que acontece na rua e eu vejo da janela, como o ipê florido que se abriu com o verão.

Quero voltar a perceber essas coisas. Um dia me dei conta de que caminhava na rua sem ao menos ver o caminho. Tão absorta em pensamentos, tão deslocada em tempo e espaço, ocupada em repassar a lista de tarefas ou a conversa que tive com uma amiga, que a visão se turvava, e deixava de perceber o lindíssimo fim de tarde que ora se via por trás do Aterro do Flamengo…

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