mudança

Mudanca_FernandaBarreto_1-reduzida_embaixa

É difícil mudar. O ser humano parece ter sido programado para buscar sempre o mesmo, a tal estabilidade, quase a imobilidade. Talvez seja uma questão evolutiva, em busca da segurança para a sobrevivência. Mas nos limita, impedindo que alcancemos todo nosso potencial.

Por que as mudanças são tão chocantes para nós? Quando um conhecido termina um relacionamento antigo, quando toma uma decisão inusitada e muda de vida, de emprego, de cidade, por que nos surpreendemos tanto, até mesmo nos chocamos, com isso?

A natureza humana é mudar. Ninguém chega aos 40 sendo a mesma pessoa que era aos 30, que dirá aos 20 anos. Eu olho para trás e me sinto a anos luz de distância da garota que fui aos 20. Afinal, 14 anos nos separam. E, no entanto, com essa idade eu já tinha escolhido minha profissão, cursava a faculdade de design e já seguia nesse curso quase linear que me trouxe a onde estou hoje. Mas, com 34 anos, será que ainda posso ser feliz fazendo o que fazia aos 20? Já vivi outras coisas, conheci outros lugares, pessoas e valores diferentes. Descobri outros interesses e mudei de opinião sobre quase tudo… Pouco restou daquela jovem nesta mulher balzaquiana, casada, mãe de um garotinho de 1 ano e meio.

Quanto das minhas ambições foram conquistadas ou fracassadas? Quanto dos meus planos continuam em curso ou foram abandonados? Quanto do que visualizei para minha vida de fato se cumpriu?

A essa última pergunta respondo: quase nada. Tudo mudou, a vida foi por outro rumo. Eu não esperava. Quatorze anos atrás, eu não esperava descobrir que o relacionamento que vivia seria tão mal-sucedido. Não esperava descobrir que passara anos com um cara de caráter duvidoso, para dizer o mínimo… Não esperava conhecer novas pessoas, me apaixonar, sofrer, me apaixonar de novo e finalmente encontrar o homem da minha vida logo ali, na praia, perto de casa… Não esperava perder minha mãe. Nem que ela não estivesse aqui quando meu filho nasceu. Não esperava ser mãe aos 32 (que fizera planos de sê-lo aos 28). Não esperava abrir mão da viagem de estudos no exterior com que tanto sonhara, mas que acabei deixando de lado ao escolher viver outras coisas. Nem de outros sonhos que ficaram pelo caminho, como a ambição de desenhar por profissão (em vez disso, segui o caminho que foi se apresentando e me distanciei do plano original, até que restou a realidade de desenhar uma vez por semana, e olhe lá).

Nada saiu como planejado, e isso não é problema. A vida se apresentou como ela é: real, ao invés de ideal. Eu lidei com as escolhas e suas consequências. Por vezes me surpreendi de forma negativa, e outras tantas, de forma positiva. Numa avaliação geral, fico feliz com o lugar em que me encontro hoje — sob muitos aspectos melhor do que havia imaginado… Mas, sim, existem coisas que eu gostaria de mudar — que, como eu disse, não sou mais aquela… Muito do que me servia antes já não me serve mais.

De tempos em tempos faz parte revirar os armários, selecionar o que não usamos e passar adiante, não é? Só assim podemos abrir espaço para roupas novas, que nos caibam melhor, que não estejam apertadas ou puídas. Assim é com a vida.

Mas, se muitas vezes é difícil selecionar aquela roupa velha para se desfazer, que dirá se desfazer de hábitos, de crenças, de valores, de planos antigos? Que muitas vezes não nos servem mesmo, nem nos satisfazem ou preenchem… Mas gastamos tanto tempo com eles, investimos tanta energia, que ficamos apegados — afinal, um dia eles fizeram parte da gente. Como abrir mão disso facilmente? E sempre vem aquele pensamento tolo “Vai que consigo emagrecer 5 quilos e passo a caber naquela calça novamente?… Só que a verdade é que, uma vez apertadas, não há mais quilos que se possa perder que nos façam voltar às medidas antigas.

Se você mudou de opinião, não adianta forçar a barra que a opinião antiga não vai mais colar. Se deixou de amar, não adianta pensar que um tempo atrás vocês ficavam tão bonitos juntos, lembrar dos bons tempos com nostalgia e achar que se você o deixar na gaveta por um tempo, talvez volte a gostar dele… O tempo não vai voltar. Nem o amor. Enquanto se forçar a seguir vestindo essa roupagem, vai ter sempre a sensação de usar algo justo demais, que não cabe perfeitamente nem fica mais confortável.

É preciso se permitir mudar. E mudar às vezes significa abrir mão de coisas que nos foram caras por muito tempo na vida. Significa se desfazer do velho e abrir espaço para o novo. Implica perdas. Algumas menos doídas do que outras, mas sempre doídas, porque perdas são assim, doem. Abrir mão das coisas é difícil. Abrir mão do que nos foi caro. Das certezas antigas. Da ideia que se projetou. Da sensação vaga de conforto que temos com tudo que nos é familiar.

Porque para mudar é preciso sair da zona de conforto rumo ao desconhecido. Não é fácil não. Dá frio na barriga, dá medo de errar, medo de acertar… Mas como viver plenamente sem aceitar nossas mudanças? Sem buscar o que nos faz sentido? Vale a pena continuar com a mesma roupagem mesmo que não nos dê mais alegria ou satisfação?… Continuar apenas por continuar, porque já sabemos tão bem suas qualidades e seus defeitos, que já não sofremos mais nenhuma surpresa — e quem disse que surpresas têm de ser sofridas?

Se vivemos com medo, vivemos pelas beiradas. Sempre em águas rasas e conhecidas, deixando de explorar a fundo o mundo à nossa volta. Quem sabe o que poderíamos encontrar se ousássemos mergulhar profundamente?

“Morre lentamente quem se torna escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não arrisca vestir uma nova cor, quem não conversa com quem não conhece. […] Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com seu trabalho ou amor, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite, pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.”
Martha Medeiros

Que 2014 seja um ano de mudança, de recomeço e de crescimento. Que usemos nosso desconforto para nos impulsionar em direção aos nossos sonhos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s