na contramão do consumo

Acho que faz parte intrinsecamente do tipo de educação que quero dar pro meu filho relativizar o valor do consumo, trazer essa reflexão para a família, para nossa comunidade. Em época de Natal, essa reflexão torna-se ainda mais necessária.

Estamos vivendo uma época de excessos. Já houve tempos de muita escassez, até entendo a humanidade ter tomado esse rumo (assim como entendo que quem nunca pôde ter não seja capaz de optar por não ter, quando passa a ter a possibilidade).

Meus pais tinham muito pouco quando jovens. Minha mãe veio de família humilde. Minha avó era sozinha e feminista por circunstância, não por convicção: mãe viúva de quatro “bastardos” (meu avô era desquitado, como se dizia à época e os dois se juntaram para formar nova família, mas ele morreu quando o mais novo tinha 2, e minha mãe, 5), trabalhou e ralou muuuuito pra superar os preconceitos (em São Luís do Maranhão, em meados da década de 1940, olha que difícil!) e sustentar os filhos. Ainda arranjou namorado mais tarde, contra a pressão de toda a família (profundo orgulho da vovó!).

Enfim, a vida era difícil, fato. Minha mãe saiu do MA casada com meu pai, vieram pro RJ. Ela sempre contou que logo que casaram não tinham nada em casa além de uma cama, uma estante de tábuas e tijolos, algumas almofadas que faziam as vezes de sofá e um som. Batalharam muito também e criaram duas filhas, já com bastante conforto. Quando eu me casei, tinha tudo em casa desde o primeiro dia. Cama, sofá, som, tv, dvd, mesa de jantar… tudo! Muita coisa dada, outras herdadas, a maioria comprada. Outros tempos, outras exigências…

Meu filho nasceu nesse contexto. Num contexto em que a casa dele já tem tudo, a família a sua volta quer dar tudo, prevenir a falta a todo custo… Num tempo em que temos oferta de todo tipo de produtos, de tudo que se possa imaginar… O capitalismo ficou mais selvagem, a publicidade mais agressiva e o público infantil se tornou um dos seus maiores alvos… Tantas coisas que antes não existiam – gadgets para tudo, desde bouncers e móbiles extravagantes até cadeirinhas com suporte para tablets (!) – são as últimas modas do momento, anunciadas mesmo como indispensáveis. Esse é o contexto dele.

Só que eu vejo muita gente confundindo “ter” com “ser feliz”, “melhor” com “mais caro”. A gente mede o valor das coisas pelo valor monetário (faço isso o tempo todo, mesmo não querendo)… e acho isso péssimo. Não leva ninguém à felicidade, e é, simplesmente, uma grande confusão de valores.

Estamos há muito tempo num processo de tentar reduzir as coisas lá em casa. Comprar menos, acumular menos, reciclar mais. Esse processo se intensificou muito depois que Guga nasceu. Espero poder passar esses valores para ele, para que ele também possa escolher SER e VIVER, em vez de TER.

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