confissões do puerpério, ou como nasce uma mãe

Hoje fui assombrada por pensamentos maldosos que não me deixavam dormir. Eles zombavam de mim e diziam que eu não fui boa mãe para o meu filho, nos primeiros meses de vida. Diziam várias coisas, apontavam-me o dedo… Dialoguei com eles, chorei pedindo que me deixassem, mas não teve jeito, acordaram-me e fizeram-me levantar e vir aqui escrever.

Nada do que li durante a gravidez, nada do que conversei ou ouvi me preparou para o puerpério. Falamos muito sobre a gestação, sobre parto… mas sobre o puerpério ninguém falou. Ouvi amigas dizerem que no primeiro ano nos sentimos sugadas pela maternidade, esquecemos de nós mesmas, os casais brigam muito e a relação fica abalada… Para tudo isso tentei me preparar, mas faltaram alguns dados cruciais para fazer as escolhas certas. Por exemplo: ninguém me explicou que é necessário se sentir sugada.

Então vim aqui defender o puerpério. É um momento terrível e extremamente difícil, mas ao mesmo tempo lindo! É quando nos tornamos mães de verdade. É necessário esquecer de todo o resto: de si mesma, do casal, do mundo lá fora, do sono, das horas… a fim de se entregar completamente a um momento em que tudo está mudando: a mãe, o seu mundo à sua volta, a sua forma de pensar e de ver a vida, o casal – que se transforma em família. Para que isso aconteça, é preciso aceitação. E para haver aceitação é preciso se entregar à corrente, se deixar levar por águas caudalosas de leite e de choro…

Não se entregar atrapalha. Faz as coisas não caminharem do jeito como deviam. Faz o tempo passar mais rápido, mas traz com isso a sensação de não ter vivido. Digo isso porque acredito que não me entreguei plenamente ao puerpério, ao menos no início. Lutei com ele, e paguei o preço – vários preços, alguns bem caros.

Adentrei o puerpério assustada. Vazia. Um bebê saíra de dentro de mim e, em primeiro lugar, eu sentia sua falta. Sentia também falta da minha mãe, que se fez mais intensa do que nunca. O fato de não ter como me apoiar nela, de não ter aquele esteio, aquele amparo, me deixaram sem chão. O pensamento de que ela nunca veria o bebezinho que saíra de mim e que eu amava tanto me dilacerava. Então o sentimento de falta foi muito marcante naquele início.

Além da falta havia também a frustração. O fracasso. Eu havia me preparado por nove meses para um parto natural com o mínimo possível de intervenções e acabei numa cesárea. A cesárea foi indispensável sim, bendita cesárea. Mas o sentimento de fracasso, de frustração e de culpa – o estúpido e irracional sentimento de ser menos mulher – tomaram conta de mim. Cada um com sua maluquice. Foi essa a que me acometeu. Eu não conseguia me perdoar por ter perdido tanto líquido tno fim da gravidez que tivemos que induzir o parto. Como não estava na hora, meu corpo não estava preparado, e por isso o parto acabou não sendo. Mas só tivemos de apressá-lo por causa da falta de líquido, que, na minha cabeça, era culpa minha. Porque me esforcei demais no final da gravidez. Porque não respeitei meus limites e me cansei e estressei além da conta. A gravidez toda tinha sido linda e maravilhosa, hiper saudável por 8 meses e, no finzinho, aquele cansaço, aquele mal estar. Eu deveria ter percebido, um alarme deveria ter soado para me dizer pra parar… Mas eu ainda tinha devaneios de me sentir poderosa, como me sentira por toda a gravidez… Não percebi que estava frágil, precisando de cuidados e de limites, que não obedeci – ultrapassei todos! Deu no que deu.

Depois veio a amamentação. Meu segundo fracasso como mãe e mulher. Esse, muito pior. Muito mais intenso. Que até hoje não consegui superar, é um trauma que tenho, uma ferida que não cicatriza. Melhora, mas não cessa por completo, de vez em quando reabre… Como fica minha autoimagem nessa história? Eu, que sempre me entendera como uma mulher que iria amamentar? Não era algo de que eu falasse, nem mesmo era algo em que eu pensasse… Era, para mim, tão óbvio e natural, que não poderia conceber não fazê-lo… Era óbvio que amamentaria.

Não consegui. Quase dois meses de muita dor, de inúmeros obstáculos e, por fim, o não aguentar mais, o entregar o jogo, o desistir. Não foi tanto uma decisão, como um faltar de forças. Precisava parar por um tempo para me curar da mastite, mas poderia vir a tentar a relactação… só que não. Não havia mais forças para tentar nada. Não consegui. Fiquei curada sim – de corpo. Mas e de espírito? A cicatriz que me deixou a drenagem do abcesso é mínima, quase não dá para ver; a que ficou por dentro é muito maior, embora seja invisível. Minha alma se dilacerou com aquele corte de contato, com a separação repentina. Aquele vínculo físico que existia se rompeu, e eu ainda nem superara a separação dos corpos – o nascimento… E para retomar dali? E para suportar o choro do meu filho quando se chegava ao peito procurando o leite que não estava mais lá?

Preparação demais, em um caso. Preparação de menos, em outro. Então como achar a medida? Não se preparar demais a ponto de se sentir tensa e de se frustrar, mas também não se preparar de menos a ponto de não ter a menor ideia dos riscos a correr e não ter como evitá-los ou contorná-los?

Acredito que o que colocou a perder a amamentação não foram somente os problemas físicos que tive, mas sobretudo a falta de entrega naqueles primeiros meses. Eu não me entreguei como esperava. Não, eu não fui a mãe que esperava ser. Desejara tanto meu filho, me preparara, vivera feliz e intensamente sua gestação, e não esperara aquele início como se deu. Não esperara as dores, a falta da barriga, a sensação de separação, a insegura, a tristeza, a saudade da minha mãe e de sei lá mais o quê de infinito que eu não enxergava, não esperara o leite jorrando, o peito empedrando, um trapo de gente, a confusão mental, um ser esquecido de si…

Tantas histórias ouvi sobre casais que quase se haviam separado e mães que tinham crise de identidade por não terem tempo para si, que decidi que aquilo não iria acontecer conosco e me preveni, tomando as atitudes que julguei necessárias… Com pouco mais de 1 mês de vida do meu filho, eu e meu marido fomos ao cinema. Minha sogra ficou com ele, com leite materno na mamadeira… Hoje penso nisso e me dói a alma!! Que louca!! Não via que não era hora? Onde eu estava com a cabeça? Cadê a entrega, a aceitação, o vínculo, a fusão com o bebê? Eu pensava que a amamentação nos unia irremediavelmente? Pois bem, a amamentação se foi, e agora? O que restava de vínculo, de fusão? O que diria àquele bebê que eu era sua mãe? Como ele me reconheceria?

Pensando muito (que eu sou de pensar em excesso), cheguei à conclusão que essa separação aconteceu porque não vivi a fusão. Estava preocupada demais em não me perder de mim e não entrar em crise conjugal, que não entendi que aquele momento era para ser vivido com corpo e alma, era para ser um momento confuso sim, um momento sujo (sangue, leite, excrementos…), um momento visceral. Não era para passar pelo puerpério limpa, com dignidade e no controle!

Acho ainda que, embora extremamente doído – e talvez por isso – foi mesmo o desmame  que me colocou os pés no chão. Me fez voltar para onde não devia ter saído: para o lado do meu bebezinho. Se antes eu achava que não podia deixá-lo tempo demais no colo porque iria acostumar mal, passei a precisar estar com ele no colo, pois de que outra maneira ele saberia que eu era sua mãe? Ou como eu mesma saberia disso, em um nível mais profundo, mais orgânico? Foi quando grudei no meu pequenininho e, da dor e da perda, tirei essas valiosas lições:

1) Não existe controle. O controle é uma ilusão. Eu posso me preparar, não me preparar, acreditar que faz parte de mim, que será instintivo, posso achar o que eu quiser… Mas não tenho controle de nada, nem do que me preparei para conseguir nem do que não me preparei. O mundo me jogou isso na cara, e estou até agora juntando os pedaços daquilo tudo, de todas essas lições para me reconstruir como mãe, como pessoa, reconstruir minha autoimagem e minha relação com o mundo sem tentar controlá-lo.

2) Sim, nós fracassamos. Eu fracassei em muitos níveis, naquele início. Não me perdoei ainda, mas sei que foi daqueles escombros que fui capaz de erguer a mãe que sou hoje, com outros conceitos e outros padrões – uma mãe, acredito, muito melhor do que teria sido caso tudo tivesse transcorrido de forma mais tranquila. Talvez eu não tivesse tido a necessidade, a urgência de mudar. Mudar minha forma de me relacionar com meu filho, de me relacionar comigo, com outras mães e com o mundo. Minha forma de maternar agora é outra, e eu acredito nela, profundamente. Não esteve comigo desde sempre nem herdei de outra pessoa; ela é minha porque a conquistei a duras penas.

O que quero dizer é que vale a pena se preparar, sim, para os percalços que estão por vir… Mas não há como estar no controle de nada disso. É preciso entender que o puerpério é um furacão, e não é possível atravessar o furacão de pé – há que se amargar algumas quedas no percurso. Sei que essa não é a história de todas as mães, algumas talvez tenham nascido com esse dom, e conseguido ser do jeito como almejaram e sonharam a vida toda… Talvez sejam mais evoluídas do que eu. Mas a minha história é essa. Muito amor e alegria construídos com suor e muitas lágrimas.

“Para dar de mamar é preciso passar a maior parte do tempo semi nuas, sem largar a nossa cria, submersas num tempo fora do tempo, sem intelecto nem elaboração de pensamentos, sem necessidade de se defender de nada nem de ninguém, só ficar mergulhadas num espaço imaginário e invisível para os outros.”

[Quem disse que isso é fácil? É verdadeiro, no entanto.]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s