quando tudo dá errado

Todo mundo tem dias ruins – aqueles, em que parece que tudo dá errado.

Eu tenho a tendência a achar que parte da culpa de nada dar certo, nesses dias, é minha mesmo. Questão de estado de espírito. Quando não fazemos as coisas por completo, presentes e inteiros no momento, elas tendem a ficar malfeitas. Quando nos entregamos ao mal humor e às auto-recriminações, a coisa tende a se agravar ainda mais.

Meu dia ruim, na verdade, começou na véspera. Um trabalho comprido, interminável e chato, com prazo apertado para enviar e cheio de estresse; uma rejeição profissional que me deixou abalada; uma ausência na aula de yoga; uma noite mal dormida. Equação perfeita para frustração e ressaca moral.

Acordei exausta, com a sensação de “só mais um pouquinho, por favor, mãe…”. Lenta e sem energia, tomei café e brinquei com meu filho, tentando acordar pro dia e recuperar as baterias.

A semana foi toda cheia e mal dormida. Gustavo acordou muito, eu dormi sempre tarde, acordei com ele no meio da madrugada e levantei cedo. Fiquei pouco com o pequeno nas manhãs, bem menos do que costumo… Cheguei mais cedo no trabalho e tentei dar conta de muita coisa, mas sempre devendo. Faltei todos os compromissos, com grande frustração: aula de desenho, de yoga e até a natação do Gustavo, que começamos semana passada. Fiasco total. Até no trabalho, que ia relativamente bem, veio essa rejeição… E muito desânimo.

Consegui juntar o pouquinho de energia que tinha e decidi ir ao grupo de estudos de antroposofia. Juntei as coisas correndo, já atrasada. Chegando lá, Guga foi logo pegando o regador e brincando com as plantinhas, querendo subir escadas, etc. Achei uma boa deixá-lo gastar um pouco de energia e só depois me juntar ao grupo para fazer os brinquedos e conversar sobre a pedagogia. Mas não foi bem assim.

Minha cabeça estava no mundo da lua, desde cedo… Nada funcionou bem pela manhã. Quando juntei nossas coisas para sair, minha cabeça não estava ali, e acabei esquecendo de tudo. Deixei a carteira em casa e tive de voltar para buscar. Depois deixei a bolsa na portaria… Pedi ao porteiro para pegar para mim, quando saí da garagem. Quando cheguei ao encontro, percebi que tinha esquecido a chupeta do Gustavo. Em casa ele consegue dormir sem, mas na rua não é tão fácil. Sem ela, é preciso contar com a sorte para fazê-lo dormir.  Também não levei nenhum lanche. Mãe relapsa. Louca. Parece até que nunca saíra sozinha com o pequeno…

Eu não estava muito preocupada com relação à chupeta porque atualmente ele não tem dormido se manhã. Mas a lei de Murphy é poderosa, e hoje, talvez por ter dormido pior, ele estava com as pálpebras pesadas de sono.

Enquanto passeamos pelo jardim até que ele ficou bem… Entrar na casa foi o problema. Começou a chorar e a ficar estressado. Em alguns momentos consegui inventar brincadeiras, mas foi função o tempo inteiro, em nenhum momento se sentiu à vontade nem mesmo para explorar o lugar, como em outras vezes. Não curtiu as amiguinhas com as quais estava acostumado, não brincou com os adultos… só chorou.

Fiquei estarrecida. Lá estavam as outras crianças tranquilonas, brincando pacificamente sobre o tapete. As mães, fazendo as atividades. Meu filho “dando defeito” sem parar quieto, gritava, gritava… Não foi a primeira vez. Fiquei me perguntando se ele não gosta da casa, das pessoas ou do clima… Ou se, afinal, a pedagogia waldorf seria realmente adequada para ele. Será que vai se adaptar a esse ritmo mais lento, mais calmo? Logo ele, que é tão agitado? (Um dos pouco momentos em que parou de chorar foi quando o deixei mexer no computador – nada menos waldorf do que isso…)

Pra piorar, logo vieram os palpites. Eu não esperava por isso nesse grupo, mas aconteceu. Uma mãe repetia insistentemente “ele está incomodado, ele está incomodado…”, claramente querendo dizer “vai embora logo pra casa com ele”. Me senti nada acolhida. Outra repetiu algumas vezes que seria melhor outra pessoa pegá-lo no colo, o que não fez nenhum sentido para mim, vendo meu filho com sono, nervoso e agarrado a mim – ir no colo de um quase estranho ajudaria em quê? A última me disse para me ocupar de outra coisa, quem sabe ele relaxaria e ficaria bem… (Imagine a cena: criança chorando desconsoladamente, a mãe senta e se ocupa de outra coisa, ignorando seu nervosismo… Ué.)

A verdade é que eu sabia exatamente qual era o problema dele e sabia que estava despreparada para enfrentá-lo. Não tinha chupeta, não tinha sling e nem carrinho – meus aliados no soninho fora de casa. Seria muito difícil fazê-lo relaxar. Eu sabia que teria de levá-lo pra casa. Mas não queria.

Essa era a questão: não querer. Como conciliar a vontade dele de voltar e dormir na própria casa com a vontade da mãe de continuar no local? Eu sabia que ele iria dormir no carro logo no primeiro minuto e achava um desperdício ir embora… Queria aproveitar a manhã, costurar um pouco, falar de antroposofia, acabar os brinquedos. MAS. Fazer o quê com um pequeno desconsolado, aos prantos, louco de sono e chateado com a mãe – essa desnaturada que não cuidou dele direito, não lembrou de seus pertences nem se programou como deveria, porque estava no mundo da lua?

Me rendi. Coloquei o pequeno no colo, peguei as coisas atrapalhadamente, despedi-me em meio a soluços e conversas, numa dificuldade geral de conciliar o interesse do bebê e o dos adultos, que insistiam em ignorar a crise e falavam comigo como se eu tivesse condições de escutar – e o pior é que eu escutava, envolvida também na minha vontade de ficar… Mas impossível conciliar as vontades, naquele instante.

Prevaleceu a vontade do Guga – que, afinal, a adulta sou eu e tenho mais mecanismos de lidar com a frustração. Voltei pra casa chateada – ele de fato dormiu no primeiro minuto de carro, mas não pensei em voltar –, cantando pra mim mesma, me lamentando e, ao mesmo tempo, me emocionando com pensamentos a jato, até chorando um pouco – por ter deixado meu filho tão desamparado, por sentir que meu amor por ele é imenso e que seu bem-estar é mais importante para mim do que qualquer outra coisa…

Logo que cheguei no encontro, todas tiramos uma cartinha com o nome de uma qualidade para pensarmos a respeito durante nosso encontro (ritual que sempre fazemos). A palavra que saiu para mim hoje foi “perdão”.

Perdoei, então, a mim mesma por ter metido pés pelas mãos, como se nunca tivesse saído com meu filho sozinha e não soubesse o que precisava para cuidar dele.

Perdoei-me por ter permitido que ele chegasse àquele extremo de chateação e por não ter saído dali antes, sem que a coisa tomasse a proporção que tomou.

Perdoei este dia e esta semana, que não foram nada do que planejei, porque estive aquém, e muito, das minhas próprias expectativas… Porque sou uma pessoa com fraquezas e defeitos, que às vezes faz besteira, e às vezes não tem forças… e às vezes as coisas não dão certo e a semana é uma merda mesmo, é isso aí.

Pensei muito enquanto estava lá que SE eu tivesse levado a chupeta… SE estivesse com o sling… SE tivesse ido sem meu filho… O problema do SE é que ele não foi. E, mesmo SE tivesse, nunca se sabe. Sei lá se teria dado certo ou ele teria continuado chorando. Não importa. As coisas são como são. Dia de merda, semana de merda, e deixa pra lá, que já passou. Partamos pra outra.

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