primeiras férias a três: São Miguel

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Foi uma semana de muito amor, alegria e liberdade. Semana de adaptações e redefinições. Do que é real, do que é banal, do que é importante, do que é família. De descobertas sobre quem é nosso filho, e sobre nós mesmos, quem somos enquanto pais.

Passamos uma semana em são Miguel, em Alagoas, local de praia, de natureza, de tranquilidade e de pessoas amáveis. Na pousada, um gramado no qual Guga se sentiu à vontade desde o primeiro instante, e para o qual, todos os dias, pedia para sair imediatamente, assim que acordava. Seguindo adiante do gramado, sem muro, sem porta nem nada, a praia. Quantas vezes ele pegou a reta da praia destemidamente, sem ao menos olhar para trás, perdi a conta.

Tão diferente podermos nos relacionar sem pressões externas e sem rotina conturbada. Sem o cansaço que faz com que cheguemos em casa e despenquemos no sofá, com força para fazer o mínimo, o estritamente necessário… Que me faz capotar junto com o bebê toda vez que o coloco pra dormir. Que, sendo assim, me rouba o pouco tempo que teria para curtir o marido, conversar, namorar… Ô rotina difícil.

Não vou dizer que não houve cansaço, claro que houve. A mudança de ritmo fez com que Gustavo dormisse de forma intermitente, diferente de como dorme em casa, acordando mais, pedindo mais aconchego. Também fizemos mil passeios, e a rotina de praia, que por si já é cansativa – sol, mar, caminhada na areia – ainda fez com que dormisse e acordasse mais cedo, bagunçando nosso esquema de sono. Isso sem falar no desgaste físico dos passeios, das caminhadas, carregando Guga de lá para cá, de cá para lá…

Mas todo esse cansaço é nada, comparado ao desgaste mental e emocional do dia a dia em casa. O cansaço que bate após um dia de trabalho, de estresses, de distâncias indesejadas, de pendências domésticas que nunca acabam, é infinitamente maior. Às vezes parece se abrir como um abismo à nossa frente, quando a rotina está puxada de verdade… O cansaço físico de andar, se exercitar, carregar o bebê e dormir pouco em nada se compara a esse abismo. Pelo contrário: é um cansaço feliz, recompensador. A sensação corporal que percebi em mim ao fim da viagem foi algo que não sentia há tempos! Uma sensação de corpo inteiro, relaxado, contente. A última vez em que me lembro de ter sentido assim foi durante a gravidez, noutra viagem maravilhosa de praia, remadas, descanso à rede da varanda e cheiro de chuva no fim de tarde… De uns tempos pra cá, só exaustão, conflitos, dúvidas e tensões. Um dia antes da viagem, me lamentei por não ter tido tempo de ir ao osteopata consertar a coluna, para viajar me sentindo inteira… Desnecessário – no segundo dia já não havia sinal das tensões que até então incomodavam.

O legal de ter esses dias para nós, 100% do tempo juntos, é a oportunidade de nos colocarmos à prova, de nos conhecermos melhor e nos definirmos enquanto família. Assim sendo, os primeiros dias foram de adaptação. Senti conflitos entre mim e meu marido – em relação a como agir com Gustavo, às nossas limitações, às nossas expectativas para a viagem. Percebi ritmos diferentes e maneiras diferentes de lidar com o pequeno e suas/nossas necessidades. Estávamos nos relacionando em um tripé: eu–Gustavo–Daniel. Eu me relacionava com Guga e ele, com o pai… mas eu e meu marido nos relacionávamos muito pouco, na verdade nos estranhávamos… Difícil isso de mudar o foco do casal para três. Logo nós, que sempre fomos tão parceiros, tão companheiros, com um longo histórico de viagens deliciosas, não estávamos conseguindo chegar num acordo, encontrar nosso novo eixo. Nos relacionávamos apenas para debater e discordar sobre como fazer as coisas… Não tínhamos ainda entrado em sintonia.

Mas aos poucos fomos nos ajeitando, e, em vez de um tripé, fechamos um triângulo: eu–Gustavo–Daniel–eu. Isso foi lindo de vivenciar! Encontramos uma sintonia – outra, nova, diferente daquela –, e aprendemos a fazer passeios também para nós, com nosso filho — que, até então, vínhamos presos à ideia de que tínhamos que fazer tudo para ele, em vez de com ele… Mas descobrimos que ele também pode nos acompanhar nos nossos passeios, e até nos surpreender ficando bem com isso. Ou seja, nos redefinimos, nos reinventamos como tríade.

Também foi incrível conhecer um lado diferente do meu filho, que ainda não conhecia. Seu lado aventureiro, companheiro, parceiro! Suportou lindamente a viagem totalizando 8 horas e meia — 2h de casa até o embarque + 3h de avião até Maceió + 1h de aeroporto + 2h30 de carro até a pousada em São Miguel. Ficou bem — não vou dizer que foi divertido pra ele, mas suportou tudo com um mínimo de mau humor! Brincou até cansar e usarmos o último recurso do DVD… depois dormiu e acordou ressabiado quando chegamos à pousada, mas no primeiro olhar para o gramadão verde já quis descer do colo e saiu pra explorar, virando-se pra mim em seguida, num sorriso escancarado!… E os dias seguintes foram assim: caminhadas na areia, banhos de todo tipo (de mar, de rio, de chuveiro, de piscina inflável, de mangueira e até de torneira), passeio de barco (super bem recebido), de carro e de bicicleta (nas costas do pai, preso ao ergobaby)… sol na cabeça, refeições fora de hora, lugares novos, horários loucos… e muito bom humor!

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Descobri nele uma concentração que não conhecia. Ficou horas, literalmente, brincando na areia, com suas pás e baldinho, quase sozinho — fiz questão de interagir pouco, deixei que a brincadeira fosse dele e que ele fizesse suas descobertas. Apenas sentei-me ao seu lado, observando, dando-lhe seu espaço e a segurança da minha presença… Participava só quando ele solicitava, me entregando uma pazinha ou outro brinquedo. Ficou sentado no meu colo observando o mar, quando fomos de barco até as piscinas naturais. Tirou e recolocou dezenas de pedras no jardim do restaurante onde fomos almoçar, de forma minuciosa e metódica. Observou formigas, sapos, lagartos, pássaros, peixes, peixes-bois, caranguejos e siris. Deitou-se ao meu lado na rede, brincou de bãobalalão, curtimos o silêncio. Até testou seu equilíbrio sobre uma prancha de stand-up, na qual nos aventuramos pelo rio…

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Fez amigos por todos os cantos, confirmando o boa-praça que eu já sabia que é. Já chegava dando tchau para todos onde quer que os encontrasse (sua maneira de dizer “oi”, “bom dia”, “obrigado” e “tchau”, mesmo). Fazia questão de ir assim que acordava até o restaurante, cumprimentar a cozinheira, e até o jardim, cumprimentar o jardineiro…

Mas, acima de tudo, o grande ganho das férias para ele, na minha opinião, foi a liberdade. Nunca antes ele tinha sido tão livre, tão à vontade para se tornar ele mesmo. Locomover-se à vontade num espaço amplo, (quase) sem restrições; ter mobilidade para todos os lados, a possibilidade de testar, expandir limites, se aventurar, em vez de ficar confinado em um apartamento… Não há dúvida de que seus horizontes se expandiram. Sua autoconfiança também cresceu, ele pôde alçar voos mais longos, mais distantes — sempre se assegurando de poder voltar para o ninho. Ganhou espaço para se movimentar e para ser, sem restrições — sem tantos “nãos” ou obstáculos, além dos desafios que ele mesmo se impunha. Esse contato com a natureza e essa nova amplitude em seu mundo são ganhos afetivos e sensoriais preciosos. Tenho a impressão de que é num ambiente assim que a criança realmente se desenvolve. Ganha a liberdade de se tornar quem ela é, quem ela pode ser. Molda seu caráter e personalidade ali, naqueles momentos de descoberta e de contato direto com o mundo. “É quando nos esquecemos de nós mesmos que nos tornamos capazes de alcançar nosso potencial”; com eles não é diferente.

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Voltamos maravilhados com tantas descobertas!

  1. Que existe sim a possibilidade de fazermos passeios e termos conversas adultas mesmo com um bebê de 16 meses acompanhando – e que ele pode acompanhar a gente, e não apenas o contrário;
  2. que a relação a três pode ser tão ou mais prazerosa e tranquila do que era a dois;
  3. que à medida que nosso menino cresce, vamos descobrindo a criança, o rapaz e, um dia, o homem que ele será – estamos no processo de conhecê-lo, e, quanto mais o conheço, mais o amo e admiro;
  4. que redescobrir o mundo através dos olhos dos filhos é sempre mágico, tão mágico quanto as descobertas que ele faz pela primeira vez.

Ver meu filho deter-se admirado diante de um coqueiro que observa pela primeira vez, desperta em mim também uma admiração esquecida por esse coqueiro; me leva a também querer observá-lo em seus detalhes, dos quais já me havia esquecido. Seu interesse quase ilimitado pelas pequenas coisas, seu encantamento ao ver uma folha que cai ao seu lado… tudo isso me faz ver o mundo com renovada admiração e interesse. Observo as pedrinhas que ele me entrega uma a uma, percebendo que não são iguais – cada uma tem sua forma e tonalidade próprias. Vejo seu olhar apaixonado pelo pai, descobrindo que cara legal, generoso e divertido ele é, e também me derreto.

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Um comentário sobre “primeiras férias a três: São Miguel

  1. Que delícia de viagem! Adorei! Gostei da leitura, a forma como escreve é deliciosa! Realmente a rotina do casal no dia a dia pos-filho é cansativa e muitas vezes sufocante para o casal em si, mas tudo compensa quando olhamos para aquele serzinho que é fruto do nosso amor, não é mesmo?
    beijo grande, vou voltar sempre 😉

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