Ser mãe é um retiro

Li há pouco tempo um texto que dizia que ser mãe é um “retiro de si mesma”, pois quando temos um filho pequeno deixamos de ter vida própria – passamos noites em claro em função do bebê, não conseguimos tempo para nós mesmas, para nos arrumar, para nosso lazer, nem mesmo para ir ao banheiro sozinhas…

Fiquei pensando a respeito, com a certeza de que tudo aquilo era verdade… Mas ao mesmo tempo com a percepção de um sentimento inteiramente dissonante dentro de mim.

É verdade que quando temos um bebê para cuidar nossa vida pessoal fica mesmo em stand by. Há mil e uma coisas que deixamos de fazer porque, simplesmente, precisam esperar. Coloque nesse pacote os cuidados básicos com a aparência (para quem é desleixada como eu, principalmente), os projetos pessoais e uma boa parte das amizades. Os amigos que mais encontro hoje são aqueles que topam vir em casa jantar ou que curtem acordar cedo pra fazer um programa matutino. Geralmente eles também têm filhos. Os amigos “da night” não tenho ideia de quando verei novamente… E tem, é claro, os novos amigos, aqueles que vieram com a maternidade – esses, vejo sempre.

Sim, parece mesmo que estou em retiro… Mas a verdade é que percebo esse momento muito mais como um retiro em mim, do que como um retiro de mim. Pra ser mais exata, percebo que não me retiro, pelo contrário: me mantenho em mim mesma. Não desvio o olhar para o mundo exterior; mergulho em mim.

Nunca me senti tão eu quanto agora e a causa é única e simples: Gustavo. Foi ele quem me fez questionar tudo que eu entendia como certo e mudar de ideia uma série de vezes, desde que nasceu. Foi ele que abalou meu mundo, colocou-o de cabeça pra baixo, e me fez descobrir que eu gosto mais assim.

Mergulho em mim mesma, no meu eu profundo, na minha sombra e na minha luz! E ele me dá forças e coragem para continuar mergulhando…

Afinal, quem precisa ir ao banheiro sozinha? Para quê? Acho divertidíssimo ir com ele e ficar administrando enquanto ele abre e fecha o porta papel higiênico e me olha, na expectativa de me ouvir falar: “aberto, fechado, aberto, fechado…”

Uma conhecida me perguntou: “Qual é o dia de folga das mães?” E a resposta para essa pergunta, a menos que você tenha alguém que fique com seu filho enquanto você vai ao cinema ou simplesmente faz as unhas, é… não existe. Mas fico me perguntando se as mães de fato querem essa folga. A maioria das mães que conheço não desapegam dos filhos tão fácil, nem topam deixá-los com avô/avó/tio/tia… E, se saem, ficam ligando 25 vezes para saber se está tudo bem, se o bebê dormiu, se não dormiu, se comeu, se chorou… Come-se o prato principal em duas garfadas, a sobremesa para viagem e, por favor, pode trazer logo a conta? (Quem precisa de cafezinho?)… Correm para casa pra ver seus pequenos e dar-lhes o beijo de boa noite, e quando não chegam a tempo, debruçam-se nas grade do berço e choram de saudade, porque o filho já adormeceu… Bicho-mãe é muito doido, mesmo.

Que mãe não conhece a sensação de estar tão cansada a ponto de rezar, pedir pelamordedeus para o bebê finalmente dormir… e, depois que ele dorme, não se aguenta de saudade e fica torcendo para que acorde logo?

Tem um motivo pra isso, e não é que enlouquecemos (ao menos não totalmente): é que ficar com os filhos é muito bom!!… Não tem como descrever a dolorosa satisfação de ser acordada às 6h da manhã ouvindo o tatibitati típico dele conversando com seus brinquedos, no berço, e ser recebida ao chegar com um sorriso de pura satisfação, com aqueles poucos dentinhos à mostra…

Adoro que ele seja 85% do assunto das conversas com meu marido. O pequeno dorme depois de muito esforço nosso — jantar, banho, canção de ninar, chororô —, e nós, em vez de aproveitarmos para pensar e falar de outras coisas… trocamos nossas experiências do dia com ele, lembrando de todas as gracinhas que fez e reafirmando “Ele é muito fofo!” e “É muito bom ser mãe/pai desse garoto!”…

Admito: depois que ele chegou, tudo ficou mais difícil de administrar. Sair, viajar… Ufa, mega função. A gente dá uma pausa brutal nos nossos interesses para focar em fraldas, papinhas e música infantil… Aprender a fazer sopa, cozinhar… Isso fica em primeiro plano, e até hoje não consegui retomar minhas atividades.

Confesso também que nunca havia imaginado vir a me interessar por assuntos que hoje são super importantes para mim, como fazer brinquedos manuais, estudar/conhecer pedagogias, discutir desescolarização… Esses são interesses novos que descobri com a chegada do meu filho (vieram no pacote), mas que me fazem descobrir a cada dia um pouco mais sobre mim mesma, sobre o mundo que quero construir – para mim, para ele. E aí, como faz para conciliar tudo?

Independente de conseguir ou não conciliar, chego a uma conclusão: quem ganha com tudo isso sou eu. Essa pausa “de mim mesma” está sendo uma baita oportunidade de escuta sobre o que de fato faz sentido para mim, na vida. Do que eu realmente sinto falta, o que é importante para mim de verdade? O que eu posso descartar? Uma pausa das distrações de antes, que me faziam achar que eu não tinha tempo para nada por um monte de bobeiras que eu achava que tinha que fazer e não tinha.

Desde que Guga nasceu, estou redefinindo prioridades. O tempo agora se divide entre tempo que passo com ele x tempo que passo sem ele. E para estar sem ele, tem que valer muito a pena, sabe? Assim, eu varro o lixo que antes havia em minha vida e acolho e guardo muito bem, e com carinho, o que sobrou — que são coisas que eu realmente prezo, que fazem sentido para mim.

E é assim que chego a algumas conclusões. Sim, eu sinto falta da aula de desenho. Sim, eu sinto falta de praticar yoga. Não, não sinto falta da maior parte dos compromissos sociais que tinha, não sinto falta das 8 horas de trabalho (se pudesse, diminuiria ainda mais minha carga horária atual), não sinto falta do meu tempo de ócio vendo tv, pensando besteira e sendo infinitamente mais neurótica. A gente se distrai muito com afazeres, com pagar contas, projetos para entregar, tempo à toa gasto no banco… se consome com isso. Hoje, não. Se der tempo pra fazer, ótimo. Se não, fica para amanhã. Ou para o mês que vem. A prioridade é meu filho. E, consequentemente, eu mesma.

Gustavo me curou. Abriu um mundo de possibilidades.

Possibilidades de descobertas incríveis e únicas.

Estou encantada com esse mundo novo que aflora!

Empoderamento feminino! Potencializando a potência! Viva, mães!

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Um comentário sobre “Ser mãe é um retiro

  1. Pingback: ser mãe é um retiro | Saaanta Mãe!!!

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