o valor das coisas

Uma sensação esquisita instalou-se hoje no meu estômago e não me largou mais. Não consegui ainda descobrir exatamente o porquê, mas continuo com esse sentimento misto de ansiedade com excitação, um desconforto incômodo… Parece que está tudo errado. Meus valores estão do avesso. A sociedade está do avesso…

Comprei ontem um par de óculos de 1.100 reais. A proposta era gastar no máximo 700. Mas experimentei um, outro e, afinal, comprei o de 1.100. É um investimento a longo prazo, pensei. Os últimos óculos que comprei foram em 2007, ou seja, mais de 5 anos. Considerando que os uso todos os dias desde então, não é de estranhar que tenha decidido investir mais nos óculos novos. Se eles seguirem o mesmo caminho dos últimos, serão usados todos os dias nos próximos 5, quiçá 6 anos, e terão mais do que se pagado, então. Racionaliza daqui, racionaliza dali… Bom, foi.

Mas sinto um incômodo por dentro. Algo se revirando no estômago. Talvez não tenha nada a ver com isso, seja algo físico. Azia, ressaca, excesso de cansaço? Hoje acordei acabada, dormi pouquíssimo à noite, cerca de 3 horas antes do pequeno acordar e demorar um bom tempo para dormir novamente… Deitei-me, por fim, às 4h e levantei-me às 7h30. Cansaço… sensação pesada, cabeça e pernas… Deve ser mesmo mal estar físico, esse incômodo.

Fui à feira, fiz as compras, e fiquei extremamente zangada por ter comprado um lote de tangerinas logo na primeira barraca pelo dobro do preço que encontrei depois, mais ao final da feira. Ainda por cima, tinha entendido que o lote vinha com 7 tangerinas, e depois percebi que havia apenas 6! Senti-me enganada.

Mas, afinal, foram apenas 3,00 a mais, nada que se compare a 1.100 reais…

Arrumei as coisas da feira na geladeira e deitei-me na cama, com a TV ligada, aproveitando que o pequeno dormia… Meu marido assistia um programa no RJTV sobre a Casa de Apoio a Crianças com Câncer São Vicente de Paulo. A reportagem falava do trabalho que eles fazem, dando abrigo e apoio a pessoas de outros municípios e estados que precisam vir ao RJ para tratar de crianças com câncer e outras doenças. Falava também sobre a ajuda de voluntários como Thiago de Mello, que arrecadavam doações e as levavam até lá, além de usar as redes sociais para descobrir quem estava precisando de ajuda e indicar o trabalho da Casa a essas pessoas. Achei incrível, e saí para fuçar um pouco mais sobre a CACC e sobre a campanha dos voluntários no facebook. Na verdade, eles organizam várias campanhas, para diversas organizações, e a CACC é apenas uma delas. Eles também mobilizam os internautas para colaborar com as campanhas, recolhendo doações, levando aos abrigos e ONGs, etc.

A reportagem também contava a história do menino Athos, que mora no Pará com sua mãe, que é dona de casa. Ele tem uma doença rara chamada osteogênes imperfeita. Tem os ossos super frágeis, motivo pelo qual sofre inúmeras fraturas. Sabe o personagem do Samuel L. Jacson no filme “Corpo fechado”? Então.

Lembrei-me que recentemente vi um menino com esse problema. Ele tinha algumas deformações no rosto, como se os ossos tivessem afundado em algumas partes. Um conhecido nosso e dele nos contou a história: o pequeno tinha cerca de dois anos e tinha acabado de começar a andar… Ele antes não conseguia nem mesmo engatinhar, pois sofria muitas fraturas com o esforço…

Chorei. Não consigo imaginar a dor que deve ser ver seu filho com uma doença como essa. Quando meu filho cai e bate a cabeça de leve já sinto uma terrível angústia no peito, não consigo me colocar no lugar dessa mãe e imaginar o que ela sofre todos os dias…

Graças ao apoio da CACC ela e filho puderam vir ao RJ continuar com o tratamento, que não existe pelo SUS, no Pará. Graças a campanhas como as do Thiago, a CACC recebe toneladas de alimentos, roupas e outras doações e pode continuar a hospedar e ajudar famílias como a de Athos.

Alguns compram óculos de 1.100 reais. Outros, compram alimentos para campanhas solidárias. Outros, ainda, articulam essas campanhas e levam as doações às instituições que precisam, doando também seu tempo, sua disposição e seu carinho.

Lembrei-me de uma cena que vi ontem no Largo do Machado: havia um tumulto em frente à drogaria Pacheco, com muitas pessoas gritando e gesticulando em volta de dois policiais militares que seguravam um rapaz negro sentado no chão, chorando, com a boca desdentada aberta. Não consegui entender realmente o que se passara, mas consegui ouvir frases soltas, como “Mas ele só roubou quatro KY…” e “Ah, mas nem deram tanto nele assim…”. A primeira defendia o rapaz; a segunda, seus agressores.

Fico pensando. Não que eu não me revolte também quando sofro algum tipo de violência, como quando tive minha bicicleta roubada. É revoltante você sofrer coação, intimidação e ser privado de algo que era seu, que você trabalhou para comprar… MAS.

Uma bicicleta. Quatro KY. Porrada na cara do negro retinto desdentado. E 1.110 reais num par de óculos…

O que aconteceu com nossos valores? Não digo valores como o dos óculos ou das tangerinas. O que aconteceu com o valor que damos às coisas e, mais importante, às pessoas?

Não, não estou sugerindo que tudo bem roubar bicicletas e KYs. Nem sei exatamente o que estou sugerindo… Também não pretendo ficar me culpando eternamente pela extravagância atípica de gastar em excesso por um par de óculos. Mas o que não consigo compreender ainda é esse valor: o par de óculos custou tanto quanto o que a pessoa que cuida do meu filho recebe em um mês de salário para fazer o trabalho mais importante do mundo: cuidar do meu filho.

Tudo isso são peças do quebra-cabeças que eu ainda não montei. Ainda não dei sentido a elas (nem sei se darei).

  1. 1.100 reais por um par de óculos.
  2. UMa bicicleta e quatro KYs roubados.
  3. Um ladrão que fugiu; outro que levou porrada.
  4. 1.100 reais de salário líquido por um mês de trabalho. O trabalho mais importante do mundo.

Será que, em algum momento, essas peças poderão se encaixar?

A propósito: a babá do meu filho também usa óculos. Ela mandou fazer novo par recentemente. Quanto terão custado?

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