dias das mães ressignificado

mãe e Gustavo.jpg

Logo se completarão 3 anos, e estaria mentindo se dissesse que a dor não se encontra hoje um pouco amortecida. Aquela sensação de existir uma nova realidade insuportável, à qual nunca iria me acostumar, passou e deu lugar a uma consciência de que a vida não é mais a que foi, mas se acostumou, e segue adiante.

No entanto, há dias em que a consciência da perda se eleva, submerge de onde a mantenho guardada, semi-consciente, e se faz mais presente. Entre esses dias, há que se temer o dia das mães.

Todos os anos sinto sua falta, todos os dias, não apenas neste. Mas um dia que antes girava em torno dela é mais difícil de ressignificar, uma vez que o elemento central saiu de cena. Apenas surgindo outro elemento central para ganhar significado em seu lugar.

Eis que, de filha, passei a mãe. Foi no último ano que ganhei esta presença. Externa, fora de minha barriga. Porque, embora com eles na barriga já sejamos mães, ainda não alcançamos todo o significado desse ser. Ser mãe é algo que se constrói, com amor e com esforço. Só com o tempo (e a duras penas) podemos alcançar a dimensão do que significa esse ser – mesmo assim, só às vezes, de relance, quando olhos, ouvidos e, principalmente, algo mais profundo, estão bem atentos. Porque um ser tão complexo não pode ser entendido assim, plenamente, como se fosse simples. Ainda que, muitas vezes seja, de fato, simples. Seja apenas ser.

Este é o primeiro dia das mães que passarei sem minha mãe, mas com meu filho. De ausência, ganhei presença. E se isso é confuso de sentir – a um só tempo tristeza e felicidade –, é como são os sentimentos mais profundos.

Hoje olhei para meu filho e chorei. Assim, sem motivo. De imediato. Deitada a seu lado, olhei e chorei. Me atingiu, de repente, a tal magnitude Aquele ser pequeno, frágil, forte e terno, que é só amor, alegria e curiosidade, que segurava minha mão enquanto dormia… me chamaria de mãe em pouco tempo. Chama, já, um “mamã” pouco definido, geralmente quando estende os braço para o alto, na minha direção, querendo conforto.

“Mamã” significa conforto, para ele. Aconchego. Colo de mãe. Provavelmente meu cheiro, que ele conhece desde sempre, desde que começou a ser. Provavelmente meu timbre. Isso é “mamã” para ele; sou eu. E eu choro quando entendo isso. Choro quando ele me vê e sorri, quando fica feliz apenas por me ver, confirmando que, para ele, sou seu mundo. Nem sempre choro por fora, mas sempre por dentro! Às vezes externo com um sorriso, em vez de lágrimas – outra confusão típica de ser mãe. Outras vezes, como agora, as lágrimas brotam sem anúncio.

Penso em minha mãe. Pra mim também significava conforto – embora, depois de criança, essa associação já não fosse assim tão clara, pois às vezes em nossa relação havia também desconforto. Algumas vezes comemorei o dia das mães não dando o devido valor à data, a pretexto de ser uma data comercial. Mas, passando ao largo disso, o que é o dia das mães? Dia das mães é todo dia, por que comemorar hoje?

Olho para o Gustavo e vejo a resposta. Por nada. E por tudo. Poderia ser qualquer dia, é verdade. Mas pode ser hoje. Como um pretexto, que às vezes é preciso na correria do dia a dia, para nos fazer parar e valorizar algo que, sim, temos e/ou somos todos os dias.

Olho para o Gustavo e penso que haverá um dia em que o dia das mães talvez não seja todos os dias… Haverá anos em que ele achará o dia das mães um saco, preferiria ir acampar com os amigos. Eu, certamente, nunca acharei um saco.

Olho para ele e não posso deixar de perceber que esse amor que sinto é o maior do mundo… E que, muito provavelmente, era como minha mãe se sentia em relação a mim. O maior amor do mundo. Como eu não percebi? Não vi em seus olhos? Sim, eu sabia. Mas, em minha cabeça de filha, era um amor que me cabia por direito, sem que eu lhe desse o valor que de fato merecia, todos os dias. Era tão conhecido para mim quanto as paredes da casa, fazia parte da mobília, dessas coisas que são nossas há tanto tempo, que não paramos para pensar nelas. Só dá pra entender a dimensão desse amor, depois que se é mãe.

É lindo e reconfortante perceber quanto minha mãe me amava, e o quanto a amo ainda, mesmo não estando aqui. O amor é um sentimento resistente, que dura pelo tempo que for, pelo tempo que o cultivamos.

Aproveito essa percepção, para me sentir imensamente grata por todos os meus amores, pois o que seria da vida sem eles? Por minha mãe, meu pai, minha irmã, meus sobrinhos, meu marido. E por esse novo grande amor, que me presenteia todos os dias com seus sorrisos já não tão banguelas, suas gargalhadas, suas mordidas, seu cheiro, suas palminhas, sua conversa em língua própria, seu brilho nos olhos.

Feliz dia das mães ressignificado.

Anúncios

2 comentários sobre “dias das mães ressignificado

  1. Descobri por acaso este site, e li por acaso todo este contagiante texto,
    Achei tudo muito puro e forte ao mesmo tempo.
    Simplesmente acabei chorando.
    Me emociono muito quando leio textos escritos com o coração.
    Será que existe mesmo o acaso, simplesmente eu não acredito.
    Beijos de coração

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s