Parto… e ele chega

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Fico pensando, lembrando e remoendo, tentando repassar todos os detalhes, o que aconteceu e o que não aconteceu… No dia mais especial que vivi: o dia em que meu filho nasceu. O dia em que nasci como mãe. Abandonei definitivamente a infância, amadureci mais do que poderia imaginar e me transformei – e me transformo – a cada dia, desde aquele.

Tento recordar para escrever este relato nos mínimos detalhes… mas a emoção é muita, e nem tudo que sinto ao examinar essas lembranças é bom ou bonito. No dia em que meu filho nasceu, senti um pouco de tudo: expectativa, ansiedade, medo, apreensão, excitação, desejo, esperança, calma, frustração, nada, vazio, amor… muito amor.

A primeira coisa de que me lembro é de estar deitada na maca da sala de parto humanizado da Perinatal com meu marido segurando minha mão e beijando minha barriga. Provavelmente porque temos essa foto, a imagem ficou viva em minha memória, não apenas a imagem, mas também o sentimento que me marcou ali. O amor que eu sentia, o desejo de ver meu filho, o medo do trabalho de parto não evoluir e acabar revertendo para cesárea – o que de fato acabou ocorrendo.

Não é fácil descrever sensações tão confusas… Mas me recordo bem da expectativa e da ansiedade dos dias anteriores. De pensar que a gestação tinha sido ótima — mas já chega! De estar mais cansada que o normal, de sentir muitas dores e não parar de reclamar da lombar… Até que a obstetra – também Fernanda – perguntou: “Será que você não está contraindo?”

Assim veio a revelação: estou contraindo!

De repente ele me pareceu muito mais próximo do que jamais estivera – aquele menino que eu vinha esperando por quase 40 semanas…

A partir de então, todos os dias eu sentia contrações, muitas mesmo, mas esparsas. Então era isso o pródromo? (Palavrinha que levei um tempo para entender do que se tratava e ainda mais para pronunciar: pród… pródro… Hm.)

Então estava eu, feliz, lépida e fagueira (ou estaria, não fosse o cansaço), em pródromo, esperando o TP começar a qualquer momento… Mas não começava. Minhas companheiras de barriga foram parindo, uma a uma, semana após semana… Chegara a nossa vez, mas nada do bebê se decidir.

Fiz a ultra de 38 semanas, que apontou pouco líquido amniótico e placenta com maturidade III (surpreendente, já que quatro semanas antes estava com grau I). O bebê quase não ganhara peso… Será que o ambiente do útero que o guardara e acalentara por tanto tempo já não estava tão bom ou confortável? Talvez tivéssemos que apressar…

O que significava apressar? Fernanda deu algumas alternativas: indução mais natural, com uso de acupuntura; indução medicamentosa, caso a natural não funcionasse. Por via das dúvidas, na consulta seguinte, ela fez um procedimento para descolar um pouco a placenta e avisou que eu iria sentir dores, possivelmente entrar em TP muito em breve.

Saí de lá segura de que no dia seguinte estaria parindo! Não trabalhei, fui para casa com bastante cólica, e ali fiquei, relaxando, procurando ajudar no que eu podia — go ocitocina, go! (Hm, não, essa ansiedade decididamente não ajuda…)

Nesse fim de semana tomei banhos quentes, comi spicy food, tomei chá quentinho, fiz sexo (o que àquela altura já era um desafio), escalda-pé, caminhei… Tudo que fosse indicado para estimular o processo do parto. Senti mesmo muitas cólicas, o útero contraía… Mas não com a constância necessária. Naquele dia (uma sexta-feira), as contrações foram frequentes. No dia seguinte, menos. Domingo chegou e… nada.

Então, na madrugada de segunda-feira: oba! Acordei com contrações nítidas, e fiquei aguardando. Logo se repetiram, depois de novo, e de novo… Não voltei a dormir nem fiquei contando sozinha as contrações – não sou tão zen!! Acordei o Daniel, que ficou contando comigo. Intervalo de dois minutos… dois minutos… três minutos…. deve ter sido erro na contagem… dois minutos (oba!)… ops, cinco, que droga… três… dois de novo…

Ok, não é TP. Maldito pródromo. Ficamos duas a três horas assim: muitas contrações, com intervalos de no máximo cinco minutos. Lá pelas 4h não aguentei e liguei para Diana. Ou mandei mensagem, sei lá. Depois dormi. Às 7h acordei e continuava na mesma. Na verdade, tinham espaçado um pouco. Liguei para Fernanda, que sugeriu para eu entrasse no banho quente, pra ver se as contrações pegavam no tranco. Saiu pela culatra: elas reduziram. E passei todo o dia assim, nesse vai e vem.

No dia seguinte, fomos à Perinatal para nova ultra. Péssimas notícias: líquido quase acabando. A médica diz: “Acho que ela não vai querer induzir, está mesmo quase sem líquido.”

Falo com a Fernanda, me diz que podemos induzir sim. Fico insegura.

— Nessa circunstância, você não acha que vale ir logo pra cesárea?

Não achava.

Chegamos à Perinatal. Da Barra. Pois é. A de Laranjeiras não tinha quarto vago.

Tudo muito estranho. Nunca me imaginara entrando na maternidade daquele jeito, como se nada fosse. Sempre me imaginara chegando em trabalho de parto avançadíssimo, o bebê quase saindo, gritando: Sai da frente que eu vou parir!… Coisa de filme.

Ou, quem sabe, nem chegaria a tempo e o bebê nasceria em casa? (Confesso que tinha esse desejo secreto.)

Nada disso. Lá estava eu, sentadinha na sala de espera, aguardando dar entrada no quarto, como quem faz check-in num hotel. Subimos, troquei de roupa, coloquei o avental de costas nuas, a touquinha charmosa… Ainda com esperanças de entrar em TP a qualquer momento. Fiz umas posturas de yoga na intenção de abrir o períneo, mas logo vieram nos buscar para a sala de parto. E lá fui eu, empurrada na maca, com Daniel ao meu lado, segurando minha mão.

Ao menos isso: estávamos juntos. Houvesse o que houvesse, fosse parto natural, induzido, cesareana (não, não, não)… estaríamos juntos. Respirei fundo.

Na sala de parto humanizado — igualzinha ao quarto —, encontrei novamente Diana e Fernanda, e os outros membros da equipe, que não conhecia: Jaqueline (pediatra), Roberta (GO assistente) e Sérgio, anestesista. Sorriu como quem se desculpa por estar ali — sabia que sua presença não era tão desejada… Necessária, é verdade, mas desejada, não.

Fernanda nos explicou os procedimentos, Sérgio aplicou as drogas no soro, ficamos ali. As contrações começaram, e fomos contando. A cada contração, uma expectativa. Será que a indução daria certo e as contrações “pegariam”?

Pegaram. Primeiro de 4 em 4 minutos. Depois foi reduzindo o intervalo. Não sei quanto tempo se passou. Dois em dois minutos: 7cm de dilatação. Até que estava tudo tranquilo, não sentia muita dor. Vou te falar que essa foi a parte surpreendentemente fácil da coisa. Todo mundo me dizia “Dói pra caralho!”… Achei tranquilo. Fazia movimentos sobre a bola, agachava quando chegava a contração, ficava em pé quando ela ia embora. Fiquei no banheiro por um tempo, sentada sobre o vazo, agachava mais quando a dor vinha, relaxava quando ia. Diana sentou ao meu lado, cantamos baixinho Baba Nam Kevalam, que tinha tudo a ver com aquele momento: Tudo é amor.

Não sei quanto tempo ficamos, me perdi dentro de mim, ouvia minha respiração, os batimentos do coração, e pensava ouvir também os do meu filho… Ouvia Baba Nam Kevalam, sentia as dores, as contrações acontecendo, a respiração… Olhava para dentro, via turvo, abstraía de tudo, parava de pensar; só cantava baixinho, olhos semicerrados e um desejo enorme de que as contrações continuassem, aumentassem, doessem, doessem de verdade!, e colocassem meu filho para fora de mim — para mim! Ao mesmo tempo um desejo enorme de que tudo continuasse como naquele momento…

Isso era o mais louco: eu estava gostando! Diria mais tarde que até que o parto tinha sido divertido! Era o que eu sentia. Esperando meu filho desejado e amado, envolta naquele sentimento de paz e de alegria.

A tensão diluiu-se por um tempo, a expectativa permanecia, mas a ansiedade foi apaziguada naquela viagem que ia e vinha… Até que, novo toque: 8cm de dilatação — quase sem dor ainda, que loucura… e Fernanda falou que o colo ainda estava espesso. Seria preciso fazer uma manobra para afinar. A manobra era dolorosa e precisaria de analgesia.

Novo banho de água fria, mas não perdi tempo me lamentando. Estávamos num ritmo, numa dança, eu não iria questionar. Minha confiança era completa, a entrega, total, e o que ela dissesse ser necessário eu confiaria e entregaria!

Analgesia feita, deixei de sentir o corpo da cintura pra baixo. Ainda tinha controle razoável sobre os movimentos das pernas (ou assim penso, mas a lembrança é confusa). Passado algum tempo, as contrações ficaram mais constantes, mas eu não sentia dor, apenas o movimento do útero contraindo — o que era muito esquisito, diga-se de passagem.

—Está na hora de empurrar, disse a Fernanda. 10 centímetros de dilatação.

Com Daniel de um lado e Diana do outro, ambos segurando minhas mãos, fiz força, ao mesmo tempo em que me perguntava se estaria realmente fazendo força. Era uma força cega, que não sentia nada, não fazia muito sentido. Não sabia onde devia fazer força, em que direção. Era como se tateasse no escuro, procurando um caminho… Onde estava a luz?

Entendi perfeitamente a função das dores do trabalho de parto. A dor era a luz! Era o mapa que me mostraria onde empurrar, onde fazer força! Sem ela, anestesiada, eu não sabia o que fazer, onde estava o períneo, que contraí tantas vezes na aula de yoga. Não sabia se fazia muita ou pouca força, mal podia perceber quando as contrações estavam no pico… Aliás, nem sabia como eu percebia que elas estavam acontecendo…

Passou-se um tempo, eu me esforçava, empurrava, empurrava, e não falava nada. Estava muda, todas as forças concentradas naquele empurrar… Não conseguia ver, decerto não conseguiria falar, mal conseguia ouvir… Mas ouvi a Fernanda dizer “força longa, precisa fazer mais força, durante mais tempo”… Durante mais tempo? Eu não conseguia… A força não durava, eu tentava prolongar, mas o períaneo relaxava, e logo a contração passava e eu desmoronava também. Pensei “não vou conseguir fazer mais força que isso”…

Foi quando veio a notícia estarrecedora: ouvimos o coração com o sonar, e ele estava fraco. Os batimentos do meu filho, que até então vinham fortes, a 150 por minuto, tinham caído – tanto! – para 88bpm!

Acordei no mesmo instante do mundo nebuloso em que havia estado. Susto, medo, decepção. E agora? Fernanda me disse:

— Querida, ele não está descendo. O colo ainda está espesso. Você praticamente não tem mais líquido, e ele parece ter uma volta no cordão que o puxa de volta pra cima, o impede de descer. É um esforço muito grande… Tentamos o quanto podíamos… Precisamos mudar para cesárea.

Ruído de algo se quebrando. Ninguém ouviu. Foi dentro do meu peito. Não pela cesariana em si; mas pelo risco implícito. A frase não dita “ele pode não resistir” pairou sobre minha cabeça, assim como o lento som dos batimentos cardíacos.

Tudo isso passa lentamente pela minha mente… Dentro de mim, aquele segundo se arrastou. Parou, quase. Ficou em suspenso. Arrasta-se até hoje, quando penso nele. Como agora, quando o relembro: é como se ainda estivesse lá, presa naquele minuto, como se vivesse novamente aquela tensão, aquele medo, a quebra da inocência.

E, agora que o descrevo, lembro-me de outro momento — outro segundo que se arrastou e se arrasta indefinidamente na minha lembrança: quando recebi a notícia de que minha mãe não resistiria ao enfarte. “Não há nada mais a fazer, só esperar…”

Não creio ter demonstrado o que senti. Será que algum dos meus acompanhantes percebeu meu mundo caindo? Acho que não, pois enquanto aquele segundo se arrastava em meu mundo interior, no exterior não levei mais do que metade dele para replicar, decidida: “Vamos pra cesárea!”

Médicos se apressam para arrumar a sala de cirurgia, o anestesista seleciona as drogas, eu aguardo… Mais minutos se prolongam e teimam em não passar. Como as quatro horas de trabalho de parto puderam passar mais rápido do que aqueles minutos?

Não sei quanto se passou entre a equipe sair do quarto e eu ser levada para o CC e começarmos o procedimento. Pareceu uma eternidade. E, para pontuar esse tempo, para que ele não passasse despercebido nem de forma inócua, a dor voltou: e voltou com vontade, com certa crueldade, até. Uma aspereza que só uma dor que sabe doer em vão, que sabe não ter finalidade alguma — pois estava fadada a se prolongar até a anestesia seguinte — pode ter. A dor vinha das entranhas e me espremia por dentro: útero, ovários, trompas, intestino, tudo! Eu me contorcia, apertava os lábios, e me recusava a fazer força. “Se quiser pode empurrar”, ouvi.

Mas não empurrei. Não empurrei porque não queria colocar meu pequeno a uma prova maior do que já havia sido colocado. Porque, se não era para nascer daquele jeito, que ficasse então um pouco mais confortável, que eu não empurraria para aliviar minha dor se aumentaria a dele. Não, não… Mordi os lábios, cerrei os punhos, me contorci inteira, mas não empurrei.

Enfim veio a nova anestesia — obrigada, Sérgio, seu lindo! —  e fiquei ali deitada, me acostumando com o lençol à frente, com a sala clara e os médicos falando…

Mas meus amores, meus queridos, meu marido amado e minha amiga do coração continuavam ali! Um de cada lado. Mãos dadas comigo. Rostos próximos ao meu. Cada passo do caminho.

Choro de neném que nasce sem abraço. Sem o último aperto da passagem… Que pula direto para o frio de fora da barriga: Ueeeeeéééé…. O rostinho dele aparece por sobre o lençol e ouço a Fernanda dizer: “Ah, menino! Você deu um susto na gente… Mas a gente perdoa, só porque você é um gatinho!”

Olhei para aquele serzinho pequeno, meio espremido, com bracinhos apertados contra o corpo, que antes tinha tão pouco espaço e de repente encontrava o vazio… o pescoço esticado com o rostinho vermelho, chorando… e pensei comigo mesma: “Gatinho que nada, parece uma tartaruguinha!”

Meu filhote chorou apenas por uns segundos, foi logo colocado sobre meu colo, ao alcance de minhas mãos. Segurei-o, envolvendo-o do bumbum à cabeça — e ele calou. De olhos abertos, ficamos nos encarando. Ele, encolhido, mãozinhas e pezinhos levemente arroxeados, mas rosto corado — saudável!

Todo saudável. Inteiro. Ali. Vivo. Saudável. Meu. Comigo. Em silêncio. Olhos nos olhos. Respiração. Sobe. Desce. Sobre. Meu. Peito. Sau. Dá. Vel. TumTum. TumTum…

Meu marido ao meu lado, me deu um beijo, falou algo doce de que não me recordo — não das palavras, mas do sentimento.

Mais um minuto longo. Olhos nos olhos. Meu filho. Meu marido. Meus amores. Minuto lindo.

Gentilmente a pediatra pediu para levá-lo para cortar o cordão. Daniel se afastou com ela. Fechei os olhos. Não sei de muita coisa desse momento. Lembro da Diana falar comigo, me fazer um carinho no cabelo. Não sei bem se nessa hora, se nessa ordem. Respirei fundo e fechei os olhos. Descansei. Tristeza. Cansaço. Alívio. Amor. Alegria viria depois… Alívio. Paz.

Gustavo voltou. Novamente sobre meu peito, agora o rosto voltado para o outro lado, o direito. Pegou o peito, mamou por um tempo. Lindo, agora mãos e pés corados, olhos abertos, acinzentados, sempre me encarando. Poderia ter ficado ali por muito tempo, olhando para ele…

Comecei a me sentir mal. Efeito da anestesia. Enjoo. Pensei “vomito ou desmaio.” Com o coração partido, pedi ao Daniel que o levasse, pois não tinha certeza de conseguir segurá-lo se desmaiasse. E eles se foram.

Momento mais triste do dia: os dois se foram. Para o berçário. Para medir, pesar, limpar, vestir. Mostrar o pequeno através do vidro para os familiares, que aguardavam. Fotos, sorrisos, lágrimas… E eu lá dentro, passando mal, sem eles, com vontade de chorar, sem conseguir, meio grogue da anestesia. Mas Diana ficou ao meu lado. E eu nunca fiquei mais feliz por ela estar lá. Ficou ao meu lado, rosto próximo ao meu, carinho no cabelo, dizendo coisas bonitas. Nem me lembro o que. Outra vez, as palavras não importavam. Sua presença ali me fez permanecer inteira.

Depois de tudo — suturas, pontos, limpeza, troca, curativo —, voltei a mim. O mal estar da anestesia passara. Fiquei ali no centro cirúrgico, deitada na maca, aguardando o maqueiro — que, vai entender!, numa maternidade do porte da Perinatal da Barra, há apenas um maqueiro.

A equipe médica passou por mim e se despediu, um a um. Sérgio, Roberta, Jaqueline (“Nos vemos em um ou dois dias!”)… Por último, a Fernanda — querida e meiga como sempre — e Dida, dividida, como quem precisa ir embora, querendo ficar mais um pouco.

Mas ali eu já estava bem. Ou, melhor dizendo, tão bem quanto ficaria, naquele momento. Pois a frustração, o medo, a insegurança, a culpa e a dúvida continuariam em mim por um bom tempo. Continuam até hoje. Sabe-se lá até quando. Por mais elaboração que eu faça, por mais que me considere resolvida em muitos momentos, sempre encontro resquícios deles dentro de mim, de tempos em tempos, se investigo direitinho. Qualquer análise mais profunda que eu faça, ali estão eles.

Frustração pelo que eu desejei e planejei, e não vivi.

Medo pelo que poderia ter sido.

Insegurança se fiz a escolha certa, se deveria ter tentado induzir, se deveria ter feito logo a cesárea, quem sabe ter poupado meu filho de um nascimento difícil.

Culpa por tê-lo permitido sofrer, por não ter evitado isso. Por não ter lhe proporcionado um parto melhor, mais receptivo.

Dúvida se havia algo que pudesse ter feito para evitar esse desfecho. Poderia ter pego mais leve comigo mesma na reta final da gestação… Quem sabe teria poupado o líquido e a placenta, ganhando tempo para entrar em TP…

Se, se, se. Todos esses questionamentos e dúvidas continuarão comigo por um bom tempo, estou certa.

Enquanto eu esperava o maqueiro, deitada na minha maca, fiquei olhando o teto e pensando, repassando a noite como um filme, acordada como nunca. Via a fila de macas com outras novas mães deitadas, também olhando para cima, provavelmente revendo seu próprio filme. Qual seria a história delas? Aparentemente todas tinham passado por cesáreas, mas certamente não agendadas, já que passava das 3h da manhã (ninguém marca cesárea pras 3h da manhã). O que as teria levado a estar ali, então? Como teria sido o nascimento de seus filhos? Teriam desejado que fosse de outra forma, ou teria corrido do jeito como haviam imaginado?

O tempo passou mais rápido do que eu antecipara. O maqueiro levou cada uma das mães aos seus quartos e, por fim, levou a mim — última da fila, novamente.

Chegando ao quarto, encontrei Daniel — meu amor, meu companheiro, meu amigo e parceiro, que esteve comigo na jornada toda, sempre ao meu lado, sempre silencioso, forte, contido, como uma rocha, me passando muita segurança e amor. Ele me recebeu com um sorriso e um beijo. E muita, muita cumplicidade. Muita história de vida vivida juntos, agora mais do que antes.

Logo em seguida, chegou nosso filho: Gustavo. Pude olhá-lo mais atentamente, agora que não estava prestes a desmaiar. Por um  momento chegara a me angustiar, pensando que o vira tão brevemente, tão confusa e tão grogue, que talvez não o reconhecesse…

Tolice. Ele estava ali, como eu o reconheceria em qualquer circunstância, em qualquer lugar. Com os mesmos olhos cinza-escuros (viriam a ficar castanhos em pouco tempo), com cílios longos como os do pai, com cabelos castanho-escuro lisos e com aquelas mãozinhas de dedos finos e longos, desproporcionais para o resto do corpo e sempre encolhidas, coladas ao tronco, fazendo-me lembrar do Horácio.

Era ele, como sempre o conhecera, desde a barriga. Lábios carnudos, nariz redondinho, arrebitado, lindo, perfeito.

Minha tartaruguinha.

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