o desmame e a sombra

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No dia seguinte me olhei no espelho. O seio esquerdo estava com aspecto melhor. Tinha desinchado um pouco e parecia menos vermelho, embora ainda estivesse deformado e cheio de manchas. No entanto, não foi esse seio que me chamou a atenção e me entristeceu; foi o direito. Aquele que não estivera doente; que até o dia anterior estivera saudável, lindo, roliço e cheio de leite. Um leitinho gostoso que alimentava meu filhote, que se produzia rapidamente e dava conta da fome do pequeno. Um peito que estava perfeitamente no esquema… E que agora – coitado –, olhava-me de rabo de olho pelo espelho: triste, murcho, sem forma, sem graça, sem leite. Um seio vazio, oco, sem função, sem propósito algum. Jamais em minha vida senti tamanha tristeza vinda de um seio.

Revendo a cena agora, com certo distanciamento, poderia dizer que a imagem que vi no espelho era uma representação fidelíssima da minha alma bipartida, dividida entre o desejo de amamentar e a dificuldade em aceitar ser apenas um peito e não ter mais vida própria. O seio esquerdo – doente, torto, inchado – ria-se. Em sua coloração vermelho-arroxeada, ainda sofria a via crúcis pela qual passara, mas ao final das contas era como se ele tivesse saído vitorioso. Resistira bravamente – como parte de mim resistia à amamentação – à necessidade de, por tempo indeterminado, reduzir sua função a alimentar. Reduzir-me a ser apenas ele – o principal e único motivo de minha existência. Agora consigo ver claramente que parte de mim resistia a essa ideia, demorou a abraçar realmente a amamentação. Considerava que deveria ser fácil e indolor, que amamentar de 3 em 3 horas era loucura – que dirá em livre demanda –, que precisava dormir mais algumas horas, que ninguém é de ferro! E, no fim das contas, essa parte venceu. Deixou-se infectar pelo egoísmo, inchou como o ego e derrubou-me na cama. Fez-me desistir do sonho de amamentar meu filho.

O outro seio – saudável – havia sido o perdedor da batalha. Após passar pelas provações, dores e receios, pressentia-se a um passo de conquistar a desejada amamentação exclusiva… Portava-se bem, já não empedrava, produzia rapidamente o volume necessário, e já o fazia de forma indolor – sem medo, sem reservas, sem se retrair à aproximação da pequenina boca. Mas, pobre sonhador, foi derrotado por um lado menos generoso, mais limitado, de mim.

As pessoas tentam me oferecer consolo dizendo que da próxima vez será mais fácil. Diana disse, logo após o parto, que o próximo TP seria super rápido, pois eu já estava no esquema… Da mesma forma, me disseram que o próximo filho serei capaz de amamentar. Com toda minha experiência, já avisada das armadilhas, começarei ordenhando desde cedo e amamentando sempre, sem deixar o leite acumular e empedrar… Certamente também, ao primeiro sinal de volume sólido que não ceda, sairei correndo para o consultório médico e implorarei “Tira, por favor, tô me lixando pra estética, pode drenar, vai ser mais uma cicatriz para fazer companhia à da cesárea… Mas essa irá me recordar do meu lado mais nobre, mais bonito… do meu sucesso, não do meu fracasso!”… E, assim, o cisto não esperará, não infeccionará, e eu poderei amamentar direitinho, com exclusividade até os seis meses, e certamente por mais tempo.

Ok, tudo isso é verdade. Mas o que não costumam perceber é que nada disso me consola. É claro que, quando estiver grávida novamente, voltarei a desejar e sonhar com um parto natural, e claro que desejarei também amamentar e tomarei todas as precauções que agora já sei que precisam ser tomadas… Assim, espero, poderei cumprir com o segundo, todas essas experiências maternais que me foram negadas com o primeiro…

Mas o que acontece é que eu queria que tudo isso fosse verdade AGORA. Eu queria amamentar ESTE BEBÊ. Não tenho ainda um segundo filho, de modo que o único objeto desse amor gigante, incomensurável, que sinto todos os dias, é o Gustavo. Se não pude oferecer a ele tudo o que considero que seria melhor, me dói de um jeito profundo, que não cede. Haja culpa para um único coração de mãe. Posso me analisar e melhorar minha relação com o tema, diluir a frustração, me perdoar… Mas esta culpa, será que vai passar? Ou sentirei sempre que não fui capaz de fazer por esta criança tudo que gostaria de ter feito? Estarei sempre em falta?

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