desmame precoce

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Eu me preparei durante nove meses para ter um parto normal humanizado lindo e romântico, com o qual sonhei muitas vezes, mas que acabou não sendo possível e se tornou uma cesareana. Foi essencial: bendita cesareana. Mas não deixou de ser frustrante, com certeza. E a frustração só piorou, quando decidi parar de amamentar. Como eu disse, havia me preparado para o parto, mas em nenhum momento para a amamentação, que eu imaginava seria tranquila, fácil, instintiva, natural. Afinal, somos mamíferas, não somos?

Qual não foi minha surpresa quando o leite desceu e as mamas ficaram enormes e duras, com duas placas laterais que pareciam paredes. Eu não sabia o que fazer com aquilo. Liguei para a pediatra do meu filho, pedi ajuda, falei com amigas, peguei uma bomba emprestada, e dá-lhe ordenha, massagem, etc. O susto passou momentaneamente, mas logo voltei a sentir dores muito fortes, pontadas agudas no peito e mais empedramento. Fui ao Instituto Fernandes Figueira (IFF), da Fiocruz. Eles tiem um serviço incrível de atendimento a lactantes, SUS de primeira qualidade. Tive diagnóstico de cândida nos mamilos. Não sabia nem que existia… Fato é que doía muito. Primeiro usei nistatina, por duas semanas, e nada. Tomei fluconazol por outras quatro semanas. Logo depois, uma mastite. Febre, calafrios; Cefalexina, Ibuprofeno.

Durante 1 mês e meio foi essa luta. Sentia dores em todas as mamadas. Chorava muito (em dias bons, chorava apenas nas madrugadas). Gustavo não ganhou muito peso, só bem no início. Havia muito estresse no momento das mamadas, talvez não estivesse muito bom para ele. Mas ele também era um bebê que mamava pouco e dormia muito à noite (meus peitos ficavam para explodir, precisava acordar para massagear, ordenhar, tentar acordá-lo e oferecer o peito – o que não era nunca muito produtivo, pois não acordava direito para mamar, e ficávamos ali, ele cochilando, eu, tentando acordá-lo e amamentá-lo.

A coisa começou a melhorar lá pelo fim do segundo mês. Descobri um cisto na mama esquerda, mas ninguém fez muito caso dele. Era um cisto de leite, bastava aspirar. Ainda sentia dores, mas estava aos poucos ficando melhor, e eu, super animada. Muito feliz porque “o pior já tinha passado”. Marquei pra aspirar o cisto, mas só tinha data pra duas semanas depois. Para nosso azar, um dia antes da data marcada, o tal cisto infecionou. Mastite braba, dessa vez galopante. De manhã estava bem; à noite, com 39º de febre e dores no corpo todo, calafrios, fraqueza. Não conseguia pegar meu filho no colo nem para acalentar. Fiquei assim três dias, quase sem conseguir segurar meu pequeno, tomando 1g de cefalexina a cada 4 horas. Ainda bem que meu marido estava de férias em casa na época, e ficava direto com ele.

Foi muito triste, me senti péssima. Não conseguia nem ordenhar, de tantas dores. Lembro-me de um momento especialmente traumático, em que tentava decidir se ordenhava ou não o leite, para esvaziar um pouco o peito. A proposta era sentir alívio com o esvaziamento do peito, mas era só encostar a bomba que doía tanto, mas tanto que não conseguia continuar, e chorava. Chorava copiosamente. Por não saber o que fazer. Por sentir demais, independente do que eu fizesse: ordenhar, amamentar ou não amamentar. Sentia dores de qualquer maneira.

Procurei minha obstetra e ela conseguiu drenar a infecção no prórpio consultório. Disse que ficou assustada com meu quadro, pois a infecção parecia querer se espalhar, e que não indicou minha internação porque sabia que eu ficaria muito abalada em me internar com meu filho tão pequeno em casa – decidiu arriscar mais um dia até o abcesso estar organizado o suficiente para fazer a drenagem. Assim foi.

Decidimos em conjunto, eu e meu marido, com o aval dela, que eu não iria mais amamentar e que o melhor a fazer seria secar o leite para não alimentar mais a infecção. Foi uma culpa terrível que senti, e até hoje me pergunto se não deveria ter tentado mais. Lembro-me do sentimento horrível de quando meu filho se aproximava buscando o peito, com fome, e eu não podia oferecê-lo. Mais uma vez, chorava. E outra, e mais outra… O choro foi meu grande companheiro, nessa época.

Havia também uma sensação estranha, como se fosse menos mulher por não ter conseguido alimentá-lo. As campanhas de amamentação parecem reafirmar isso todos os dias, aliás. Posso perceber olhar acusador da Cássia Kiss no poster, bela, maquiada e limpa, com seu mamífero gordinho e feliz no colo. Ela me diz: “É tão fácil. Como você não conseguiu?”

Eu não quero desestimular ninguém com toda essa história, muito pelo contrário. Acho amamentar uma das capacidades mais bonitas do ser humano. A prova de que somos animais, somos mamíferos, e eu acho a coisa mais linda do mundo que nosso corpo seja capaz de produzir o alimento completo para sustentar nossa cria, sem necessidade alguma complemento à dieta durante uma boa quantidade de meses. Mas a verdade é que não é fácil. E eu não sabia.

Acho isso surpreendente até hoje: eu NÃO SABIA. Ninguém me contou. Apenas minha irmã havia me dito que tinha dito problemas com a pega da filha e do filho, que ambos pegavam o peito errado e deixavam o seu mamilo muito ferido. Ela desmamou cedo também, um pouco depois de mim, mas porque seu leite secou por si só. Os outros casos de amigas próximas que já tinham sido mães (não eram tantas) a amamentação havia sido bem sucedida ou havia sido interrompida por haver pouco leite e terem acabado substituindo o aleitamento materno pelo leite artificial. A única coisa que eu mentalizava, antes de ter meu filho, era que eu tivesse bastante leite. Desejo atendido. Problemas decorrentes dele, também.

Eu era completamente leiga no assunto amamentação. Como eu disse, pensei que seria natural e instintivo. As pessoas com quem havia conversado me confirmavam isso. Pensei em fazer um curso de amamentação (meu marido insistiu que eu fizesse), mas todos com quem conversei, inclusive as profissionais de saúde, não deram grande importância a isso. Então não me informei… e fiz muita cagada, também. Segui conselhos errados da famigerada “Encantadora de bebês” e de pessoas próximas, que me diziam para regular as mamadas com o intervalo de trê em três horas, mas isso foi um verdadeiro tiro no pé. Com um bebe pequeno, que precisava ganhar peso e que dormia muito à noite, o que eu NÃO deveria ter feito era regular as mamadas durante o dia. Também me orientaram a mantê-lo no peito por cerca de 40 minutos, e eu tentava… Era um saco para nós dois, ele mamava uns 15 minutos e adormecia, e eu ficava lá, tentando acordá-lo e entupi-lo de leite que ele não queria naquele momento, acabava ficando lotado e golfando muito. E depois, só dali a três horas de novo. Muita maluquice… Livre demanda. Hoje eu sei. Amamentação é livre demanda: o bebê pede, você dá o peito. NÃO dá chupeta pra acalmar, porque o ato de “chupeitar” também faz parte da amamentação. Estimula a produção de leite, esvazia as mamas, evita empedramentos e mastites.

Por que eu falo disso hoje? Porque sinto que preciso avisar às futuras mães o quanto pode ser difícil amamentar. Para que elas se informem, visitem o IFF, conversem, peguem contatos de consultoras de aleitamento, descubram sobre a livre demanda e os possíveis problemas que podem ocorrer, para saber, minimamente, se orientar. Para que se preparem, respirem fundo, comecem a jornada com garra, com determinação e perseverança, que acreditem, apesar do meu exemplo, que é possível sim superar os obstáculos, se tudo for enfrentado desde o início com mais coragem, determinação e apoio do que eu tive. E que se cerquem de uma rede de apoio muito forte pró-amamentação. Pediatra pró-amamentação. Pai da criança pró-amamentação (se não for, pode enviar ao Fernandes Figueira para ser catequizado). Obstetra pró-amamentação. Conselhos como “Coitado, não está engordando, está com fome, dá logo uma mamadeira” ou “Coitada de você, amamentação é para ser uma coisa tranquila, assim é sofrimento” só servem se te levarem ao caminho que você DESEJA escolher. Caso contrário, não são apoio, são palpite e intromissão.

Se, afinal de contas, você não quiser passar por isso tudo mesmo – porque é difícil demais e dolorido demais, eu te entendo, eu não consegui persistir… Bem, então não se obrigue. Porque, realmente, martirização não é legal na maternidade. Já é difícil o suficiente com a gente fazendo o que quer, o que não quer então, se torna um sofrimento. Se não for possível, NÃO SE CULPE. Isso não fará de você uma mãe pior, nem enfraquecerá seu elo com ele, se você o pegar no colo, o acalentar e o amar muito.

No meu caso, tive algumas nóias bem doidas por conta do fim da amamentação… Chorava, me sentia desconectada do meu filho e me perguntava se ele iria saber que eu era sua mãe, e como saberia isso, agora que a amamentação não estava mais na jogada. Foi uma nóia que passou, a partir do momento em comecei a conseguir criar os espaços e vínculos com meu filho que dariam conta de todas essas questões. Muito contato pele com pele, colo, shantala, brincadeira, alegria. Muito “eu te amo” dito em voz alta. Muita música cantada para dormir. Muito carinho.

O final da história é o seguinte: Gustavo vai fazer 6 meses, é um menino lindo, gordinho, super esperto e alegre, que quase não chora e ri para todo mundo… Até hoje não ficou doente, a não ser por umas assaduras. E olha que tanto mãe quanto pai já estiveram bem gripados e por perto. O leite artificial não é o alimento mais indicado para os bebês humanos – esse seria o leite materno –, mas ele é plenamente rico em vitaminas e meu filho cresceu e se tornou muito saudável graças a ele – bendito LA.

Frustrações fazem parte da vida, faz parte senti-las e aceitá-las… Maternidade real, em vez de maternidade ideal é o que cada uma terá pela frente. Mesmo a que teve o mais incrível parto natural, em casa, na água, de cócoras ou plantando bananeira, pode ter problemas com a amamentação; mesmo que a amamentação seja tranquila, a introdução alimentar pode ser um pesadelo e a criança simplesmente recusar tudo que é sólido e insistir em só querer peito; mesmo que a IA seja super bem sucedida, a qualquer momento pode aparecer aquela doencinha que te tira do eixo, faz você acordar dezenas de vezes por noite para ver se ele está bem e respirando; mesmo sem doença nenhuma e o bebê dormindo bastante, chega um salto de desenvolvimento, um pico de crescimento ou angústia da separação que o fará acordar trocentas de vezes à noite, como se fosse um recém-nascido e se agarrar no seu peito como se não houvesse amanhã, te deixando exausta; e mesmo que essa fase não seja muito intensa, daqui a pouco ele faz um ano e começam as birras que deixam qualquer uma louca, e depois os terrible two e three – e imagina aos 15 anos?…

Enfim, a maternidade é linda e transformadora, independentemente desses percalços (ou, misteriosamente, por eles?). E você poderá construir uma relação linda e forte com seu filho, com direito a momentos que você vai desejar congelar para a posteridade, e você poderá estar “submersa num tempo fora do tempo”, com ou sem amamentação.

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