o tombo

andava por ali que era como se não visse a rua. a cabeça estava em outra. a mente, fora do corpo. pensava em mil, mil e uma coisas, quiçá! viagens, ilusões, delírios. começou pensando em tudo que queria, depois, em tudo que iria, e, por fim, em tudo o que seria. e seria muito, seria tudo, seria o máximo, enfim!
o som dos pensamentos a atordoava. era cacofônico, poluído, agudo. não ouvia a rua, não via nada. andava com a cabeça nas nuvens, o olhar vidrado, sem ver, vendo apenas sonhos. ocupavam-lhe a mente toda, não sobrava um espacinho para o mundo.
caminhava eufórica. dir-se-ia uma diva, o máximo, o supra-sumo do máximo. uma viagem egóica, sem volta. ou quase sem volta. que, em seu devaneio de imaginar tudo, de querer tudo, de vislumbrar o futuro que ninguém mais via, só ela mesma, esqueceu-se de ver o chão em que pisava e a fruta – ah!, aquela frutinha caída da árvore – que lhe traria a queda.
foi ao chão: ilusões, sacolas, bolsa, tudo. escorregou na fruta, projetou-se à frente, como que voou, aterrissou e, pimba! joelhos dolorosamente encontrando o chão.
foi um tombo estrondoso, devaneios caindo por terra, quicando a seu redor. cada um que caía soava um barulho ensurdecedor. a rua, antes embaçada, entrou em foco. vislumbrou bem o chão, as pessoas indo em seu auxílio, e a fruta – danada!…
surgiu-lhe a dúvida: teria torcido o tornozelo? e os joelhos, estariam bem?
sentou-se, pernas esticadas. silêncio, agora. o estardalhaço mental desaparecera. mexeu uma perna, depois a outra. nada de errado. apenas a dor do impacto contra o solo, a dor do retorno ao mundo real. o mundo a chamara ao chão. caiu em si.
levantou-se com pesar e saiu andando, agora lentamente. sem euforia. sem delírio. sem descuido. um pé após o outro. atenção à estrada, que assim se deve caminhar.
percebeu o silêncio dentro de si e, com ele, a paz. pegou-se mesmo a gostar do tombo. que fez-lhe bem. estava precisada.
apesar da dor…
mas a dor a tornava mais real.

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