Clara e a cebola

descascar_cebola
Clara preparava o jantar na cozinha, só. Com uma taça de vinho ao lado, descascava e cortava legumes, temperava a carne, lavava o arroz. Olhou para a cebola. Suspirou, criando coragem. Estava lavada e descascada. Faltava cortar.
Sua avó lhe ensinara o truque de colocar a cebola sem casca no congelador 20 minutos antes do corte; o suco ficava parcialmente congelado e espirrava menos. Hoje ela não fizera isso e, assim que trespassou a cebola com a faca, sentiu os ácidos respingos nos olhos, que arderam e começaram a lacrimejar de imediato.
Sempre chorara copiosamente ao cortar cebola — era muito sensível à acidez gotejada. Os olhos ardiam, ficavam vermelhos e derramavam lágrimas e mais lágrimas, que vinham do mais profundo de si. Mas não se incomodava; aproveitava o ensejo para chorar tudo que não conseguia normalmente, por tristeza, saudade ou falta. Sempre tivera dificuldade em desabafar e lavar sentimentos, de modo que ressentimentos iam-se acumulando no centro do peito, cada vez mais fundo, enraizados. De tempos em tempos, quando sentia que não lhe era mais possível carregar a pedra no peito, sacava uma cebola da geladeira e começava a fatiá-la sem piedade — para com ela e para consigo mesma. Quando sentia que uma apenas não seria suficiente para o tamanho da tristeza, cortava outra e mais outra, até sentir-se limpa de alma e livre de sofrimentos.
Se alguém entrava na cozinha e perguntava o que havia, não hesitava na resposta. Todos sabiam o quanto chorava ao fatiar cebolas; era sua fraqueza — que conheciam e aceitavam como sendo a única.
Assim, permitia-se chorar tudo que viesse aos olhos: mágoas guardadas, palavras presas à garganta, silêncios forçados por anos de hábito e de costume, anseios não conquistados, sonhos não realizados e todo o tempo de vida mal vivida, recolhida dentro de si, sem jamais conseguir colocar para fora o que esperara e almejara para si e que não soubera fazer por onde. E as culpas, que também não eram poucas — e que diziam respeito, em grande parte, a faltas cometidas contra si mesma.
O jantar ia ganhando forma ao mesmo tempo que seu semblante se suavizava e a pedra dentro do peito cedia, deixando-a, se não livre, ao menos amenizada, amortecida, pronta para outras que estivessem por vir.
Porque cortar cebola era tão libertador, não perdia oportunidade de fazê-lo. Ainda que outros acorressem muitas vezes em seu socorro oferecendo-se para fatiar em seu lugar, sempre se recusava a aceitá-lo e submetia-se ao suplício. Nunca seriam capazes de compreender por que alguém que se incomodava tanto com aquele sumo forçava-se de maneira tão orgulhosa a efetuar, de cabo a rabo, dolorosa tarefa. Jamais suspeitariam que esse era, na verdade, seu consolo.
Apenas ela sabia. O prazer no corte e nas lágrimas era sua recompensa.
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