Silêncio

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O primeiro sintoma demonstrado ao mundo foi não mais falar. Um dia acordou e não pronunciou palavra. O marido lhe fez perguntas, estranhou, mas a resposta veio muda, com um aceno, a mão dela sobre a dele. Não era que estivesse revoltada ou que quisesse chocar alguém; simplesmente não tinha nada a dizer. E, quando não se tem nada a dizer, melhor ficar calada.
Família e amigos ficaram preocupados. Quiseram levá-la ao médico, a um psiquiatra. Recusou-se terminantemente, sacudindo a cabeça. Continuou a passar os dias em silêncio, mas sem faltar aos compromissos; lavava, arrumava a casa, cozinhava. Beijava o marido no rosto, apertava o nó da gravata, despedia-se dele na porta. O outro aos poucos acostumou-se com seu silêncio, passou até a gostar dele. E a vida seguiu adiante.
Não sentia falta de falar. Não sentia falta de nada, a bem da verdade. Sentia alguma falta de sentir — mas até isso, pouco a pouco, foi passando. Não havia dor, não havia angústia — tudo que a haviam ensinado a temer. Tanto economizara-se, que acabou por se perceber um dia sem mais nada sentir. Incomodou-se um pouco, no começo… Mas, como com quase tudo, se acostumou.
Os dias passaram, assim como os meses e, logo, um ano. O silêncio de quem nada dizia acabou gerando também um silêncio em resposta, a seu redor. A cada dia iam, gradativamente, parando de falar com ela. E ela foi deixando de ouvir o que eventualmente lhe falavam. O silêncio cercou-a totalmente, como uma espécie de aura que a protegia e isolava. E, da mesma forma, suas ações também a tornavam dia a dia mais solitária. Não tinha vontade de estar com alguém; não sentia falta de organizar a casa. Foi, então, deixando até isso de lado.
Passou a sentir-se cansada. Uma única e nova sensação: o cansaço. Não queria mover-se, comunicar-se ou mesmo pensar. Não queria ver nem ser vista.
Um dia, deitou-se na cama e ali ficou. Fechou os olhos e desfrutou do silêncio total e absoluto, de uma escuridão completa e da sensação de estar fora do mundo. Era paz. Não a paz que fantasiara, que imaginara vir acompanhada de felicidade e satisfação… Mas era paz de não ser, de não estar. De ausência. Deixou-se ficar ali por um bom tempo, experimentando aquilo. Depois, tomada por uma ansiedade há muito esquecida, levantou-se. Pôs-se a percorrer a casa e retomou os afazeres.
Dias depois, deitou-se de novo, dessa vez prestando muita atenção à sua volta. Não havia muitos sons. Não havia vozes, pássaros não cantavam. Muito ao longe, ouvia o som da rua — mas estava distante, de cima do prédio de 18 andares. Outra vez fechou os olhos e, dessa vez, demorou-se. Entregou-se à sensação de ausência como quem dá-se ao esquecimento. Parecia flutuar no vácuo: sem som, sem vento, sem peso, sem movimento. O perfeito vazio.
Compreendeu o inevitável destino que há muito a aguardava, e para o qual se preparara sem saber, no último ano. Levantou-se ao ouvir a porta bater e o marido entrar em casa. Examinou-se. Como sempre, percebeu-se sem sentimentos. Mas havia algo novo: uma determinação velada. Serviu o jantar, lavou a louça, dormiu. Como em todas as noites.
No dia seguinte, após despedir-se e passar com suavidade a chave na fechadura, voltou para o quarto. Já separara o copo d’água, e levou a mão à boca sem hesitar. Engoliu. Depois deitou-se na cama, cerrando os olhos. Deixou-se mais uma vez flutuar na completa privação de sentidos. Era assim que queria estar: inerte e em silêncio. Sem ter que se esforçar para falar, para se mover, para pertencer ao que não queria pertencer. O vácuo a envolvia de forma cada vez mais profunda, e a consciência deliciosamente se esvaia. Sobrava apenas o escuro… O escuro e o silêncio.
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