Sobre cultura do estupro

Pra quem não acredita que exista uma “cultura do estupro”, vou contar um “causinho”. Não faz muito tempo, na verdade, foi há poucas semanas.
Eu estava na papelaria com meu filho, ele correndo de um lado para o outro, animadão. O dono da papelaria, um senhor que sempre nos vê lá, estava contando das duas filhas, já adultas, e que “dão muito trabalho”. Em dado momento, ele olha pro meu filho e diz, com um suspiro:
– Ah, se eu tivesse um meninão assim! Eu ensinava ele a beijar muito as menininhas! Continuar lendo

comunicação, empatia e não-violência para uma educação saudável

Passo a mão na testa do meu filho dormindo e penso nos nossos embates durante o dia, no que dividimos e no que aprendi de tudo isso. Sinto-me triste. É algo que me impressiona quão pouca abertura temos para receber o questionamento das crianças. Quão pouco espaço para a tolerância e a empatia, para o diálogo, para o limite amoroso aplicado com generosidade e paciência. Para a não-violência, a ausência do uso de ameaças e jogos de poder. Continuar lendo

Primavera das mulheres

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Foi uma noite gloriosa e eu cheguei em casa eufórica, sem conseguir dormir. Saí cedo demais do teatro, louca para estar ali, com elas, brindando, festejando, primaverando. Fiquei pensando no que vi, no que sentimos nós todas, juntas, unas, na catarse coletiva que foi aquele show.

Elas alcançaram tudo. Todos os temas e sentimentos, tudo o que debatemos estava lá. Os assuntos que discutimos, o que nos assola, o que nos choca, o que nos comove e nos encanta. Com gentileza e, em outros momentos, com dureza. Com meiguice e doçura ou com violência. Me senti acarinhada, abraçada, arrepiada, estapeada, chacoalhada, acordada por essas mulheres. Elas disseram tudo que eu gostaria de dizer e talvez não tivesse percebido, e de um jeito mais lindo e sensível do que eu poderia fazer. Continuar lendo

madrugada entre mãe e cria

São 6h30 e até agora você só conseguiu dormir duas horas, parceladas em dois cochilos de uma hora cada. A cria termina de mamar e dorme esparramada sobre você, que, apesar de ansiosa por mais um momento de sono, não consegue dormir, pois precisa ir ao banheito, mas não consegue se decidir, pois não tem coragem de tirá-la do colo, que está tão gostoso aquele pacotinho em cima de você… Continuar lendo

cidade partida

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Passei o dia todo remoendo essa tristeza aguda de sentir tão pouca esperança no estado de coisas que parece ter se instalado no país (no estado, na cidade, nas relações humanas em geral). Essa divisão entre mundos, essa dicotomia. Chegamos a uma encruzilhada, e por qual caminho seguir não está claro. Mas o que parece claro é que quem escolhe ir por um lado deve necessariamente odiar quem escolhe ir pelo outro e vice-versa. Não existe coexistência possível, não existe tolerância ou diálogo. Vá pelo seu lado, eu sigo pelo meu. E cada um grita para o outro, em seu caminho: “ignorante”, “burguês”, “burro”, “elitista” e assim em diante. Continuar lendo